Inquietação

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Na cidade onde Laurinha morava respirava-se arte. Suas casas, telhados, lampiões, monumentos e, principalmente, as igrejas foram preservadas. Centro histórico da arte barroca, Tiradentes, em Minas Gerais é visitada por turistas do Brasil e do mundo. De um lado da cidade, uma extensa serra negra, formada de quartzito, reluz ao sol. Quando escurece uma calma profunda invade o lugar, mas desejos e anseios borbulham no coração desta jovem imaginativa e inquieta. Trabalhava numa confecção de camisetas, mas seu melhor ofício era criar e produzir vestidos finos para suas amigas por ocasião de casamentos, formaturas e outras festividades. O seu próprio vestido de noiva, várias vezes, o refez, alterando decotes, mangas, bordados, sempre que seu noivo lhe dizia que a casa que estava construindo não ficara pronta, apesar de se ocupar com ela dia e noite.
 
Com intenção de avisar o pároco de mais um adiamento dirigiu-se à Igreja Matriz de Santo Antônio em cujo interior extremamente rico em imagens, detalhes, pinturas, peças sacras revestidas em ouro deparou-se com aquele jovem que falava com o padre em uma língua semelhante a sua, mas não igual, com uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço. O padre os apresentou dizendo tratar-se de um fotógrafo argentino a serviço de uma revista de seu país e precisava de uma pessoa, conhecedora da região, para lhe mostrar os lugares históricos importantes. Laurinha relutou, mas o jovem insistiu e ela sentiu–se atraída por fazer algo diferente em sua vida rotineira. E, assim, ela fazia-se guia e ele fotografava paisagens, ladeiras, museus, casas e criações dos artesãos em ferro, pedras, madeiras, com seu olhar pessoal, valorizando ângulos, luz, formas e cores. Buscava-a após o trabalho, despertando comentários entre suas amigas, mas Laurinha estava encantada com aquele estrangeiro que costumava visitar países diferentes à procura de lugares notáveis e exóticos. Quando ele propôs apresentá-la para a editora de moda da revista, onde ela poderia desenvolver seu talento e tornar-se o que ela era realmente, buscando a si própria, decidiu-se na hora. Deixou tudo para trás, o noivo desmotivado, a igreja dos negros, ornamentada com ouro em pó, trazido nos cabelos dos escravos, o chafariz de 1794 abastecido por aqueduto de pedra feito, também, pelos escravos, os originais artesanatos, a estrada real. Levou apenas a imagem do sol refletindo na serra negra.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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