Coração lisonjeado

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Quando meus filhos eram crianças, eu era muito novo e possuía tantas certezas.
 
Fazia retrospectivas , deduzia que meus pais haviam cometido muitos erros porque, na busca de proteção para os rebentos, acabaram por estabelecer espaços muito estreitos para eles. Tais limitações fizeram grassar nas almas dos filhos a timidez, a falta de arrojo, a autoestima reduzida.
 
- Meus filhos serão dotados de iniciativa, escolherão, por si mesmos, as próprias estradas – cravava do alto de minha arrogância.
 
Naquela época, eu optava por raspar a cabeça, conservando minúsculo topete. Indo ao barbeiro acompanhado das crianças, mandei raspar a barba e a cabeça. Meu filho desejou corte idêntico.
 
- Raspe.
 
Minha filha quis que sua cabeça ficasse igual à do irmão.
 
- Corte.
 
Se me lembro bem, a Maninha tinha cerca de quatro anos, o Dedé, cerca de seis.  Quando chegamos em casa, a confusão já estava armada: parentes e conhecidos não me perdoaram, taxando-me de louco.
 
Quando a garota completou sete anos, morávamos na capital paulista, ela foi matriculada no primeiro ano primário. Antes do primeiro dia de aula, acompanhei-a, ensinei-lhe o percurso de casa até a escola, ida e volta. Daí por diante ela foi sempre só à escola, localizada  a sete quarteirões de distância. Para tanto, transpunha, inclusive,  a Avenida Consolação.
 
Quando o menino tinha mais ou menos dez anos de idade, e morávamos em Franca, ele me pediu para visitar primos em Cássia, Minas Gerais. Dei-lhe dinheiro, uma piscadela e orientei:
 
- Se vira.
 
Ele se virou. À tardezinha, minha tia Laurinda telefonou dizendo que a polícia tinha levado o Dedé à casa dela.
 
- Só descobriram que ele estava sozinho no ônibus quando já estavam chegando a Cássia.
 
Castiguei a ambos  dura e fisicamente quando mentiam ou descumpriam a palavra empenhada.
 
 Naqueles tempos, eu era novo e possuía todas as certezas.
 
Hoje, quando tantas dúvidas me assaltam e tantas certezas se esfumaram, sinto-me envaidecido e orgulhoso de meus filhos.
 
Orgulho-me do Dedé que jamais desapegou de sua índole caritativa e tanto esforço tem feito para superar suas fragilidades.
 
Orgulho-me da coragem e da persistência da Maninha que acaba de ser diplomada Doutora em Língua Portuguesa e Linguística, pela Unesp, depois de aprovada por banca constituída pelos doutores Marina Célia Mendonça, Edna Maria Fernandes dos Santos Nascimento, Juscelino Pernambuco, Maria Sílvia Olivi Louzada e Renata M. Facuri Marchezan.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

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