Filho Adorado

Por: Roberto de Paula Barbosa

Oh senhor meu Deus! Por que você fez isso comigo? Você não é misericordioso, bondoso e ama todos os seus filhos? Então por que razão deixou que meu filho, meu único e amado filho, partisse deste jeito? Eu realmente não entendo os seus desígnios! Mal consigo acreditar que sua bondade é infinita e que você ama a todos sem distinção! Continuo insistindo que você nos deixou, eu e minha esposa, em um mar de lágrimas e sem mais motivos para vivermos, pois retirou de nosso seio a pessoa que mais amávamos.
 
Meu filho, meu querido, como alguém pode tirar sua vida tão jovem. Vendo-o inerte neste caixão coberto de flores, com semblante calmo, o rosto tão bonito, não consigo entender como uma vida carregada de vigor e energia pôde ser arrancada assim tão facilmente de nosso convívio.
 
Nós, eu e sua mãe, trabalhamos tanto desde que nos casamos, pois pretendíamos criá-lo com muito amor e dedicação e que não sofresse carência de nada, tivesse todo o conforto do mundo e que nada lhe faltasse. No começo, quando você ainda era bebê, dedicávamos tempo integral ao trabalho, pois o começo de uma família é dispendioso, para garantir a você um futuro brilhante. Deixávamos você com a babá, que nos ajudou imensamente, embora ficasse caro.
 
Você se lembra de nossas festas e churrascos? Você se lembra de quando pegou aquele copo de caipirinha que eu deixei sobre a mureta da varanda e o virou todinho? Nós rimos à beça, pois você trocava as perninhas e não conseguia parar de pé. Você tinha quantos anos? Uns quatro, cinco anos talvez? Você cresceu nesse ambiente alegre e festivo e não havia motivo para tristezas. Você se lembra de quando tomou o primeiro copo de cerveja com o papai? Eu me lembro bem: foi no seu aniversário de doze anos. Sua mãe colocou obstáculo, mas eu impus a minha autoridade: ele já é um homem e assim terei uma companhia para as cervejinhas do fim de semana. Que mal tem? É melhor ele beber comigo, na nossa casa, do que ficar saindo aí com pessoas desconhecidas. Ou você acha que, sendo homem, ele não vai beber?
 
Você se lembra também do primeiro cigarrinho? Eu realmente não queria que você fumasse, mas um dia eu o surpreendi no quintal aprendendo a dar umas baforadas numa bituca que você filou do cinzeiro. Vi que não adiantaria proibi-lo e já que você assumiu ser homem de verdade, que mal teria em compartilhar nosso fuminho?
 
O seu crescimento foi cercado de toda a tecnologia moderna. Trabalhamos duro, mas você estava sempre na frente de seus colegas e amigos. Lembra-se do primeiro celular? Quase ninguém de sua turma tinha. Pagamos uma nota preta por ele, mas a mamãe, preocupada, ficou mais tranqüila, pois sempre que você saia, ela entrava em contato e você nos dizia onde estava e com quem estava. Que tranqüilidade! Você foi o primeiro a ter computador e internet no quarto, quando seus amigos nem pensavam em tê-los em casa. Suas roupas eram todas de grife e os tênis importados. Gastamos muito dinheiro com você, fizemos muitas dívidas, mas nunca deixamos de atender suas exigências.
 
E na escola então? Você não era o melhor aluno da classe, mas desde cedo eu o ensinei a se defender das agressões de algum colega mais abusado. Aliás, quem se deu melhor na vida, foram aqueles que menos estudaram. Você se lembra daquele dia que chegou com um olho roxo? Fiquei danado da vida, mas quando soube que seu agressor estava com os dois olhos roxos, um dente quebrado e o braço na tipoia, foi um dia de glória para mim, pois você correspondeu totalmente àquilo que eu esperava.
 
Você ainda não tinha completado os dezesseis anos e já tinha uma moto pequena e fazia inveja na moçadinha. Também comecei a ensiná-lo a dirigir e quando completou os dezesseis já era um craque no volante. Como você já dirigia bem, eu não via motivo para não deixá-lo ir às baladas com um de nossos carros. Eu só pedia para você evitar os guardas porque senão poderiam recolher o carro e eu levaria a multa. Depois eu fiquei sabendo que, com muita habilidade, você conseguiu furar muitos bloqueios e se safar. A partir daí fiquei receoso de deixar você dirigir, mas não tive alternativa quando você prometeu se cuidar melhor. Sua mãe ficava muito apreensiva, mas sempre eu a acalmava, dizendo que você era Homem e muito responsável, pois tínhamos lhe dado de tudo. Aí voltava a ficar tudo normal.
 
A gente não tinha muito tempo para conversar sobre alguns assuntos relevantes, mas eu sempre pensava que a rua é a melhor escola, pois nela aprendem-se coisas que nós não teríamos coragem de abordar. Mas, mesmo assim, nós tínhamos nossos momentos de cultura e laser. Às vezes eu chegava tarde do trabalho e o encontrava frente à TV. Assistíamos juntos àqueles programas divertidíssimos e até participávamos da eliminação de algum herói no BBB ligando para o número solicitado. E os filmes, então? Cada um melhor que outro. Não perdíamos nenhum filme do Schwarzenegger e do Rambo. Eu acho que eles foram os mais instrutivos, para que você se tornasse um verdadeiro Homem perante seus amigos e colegas. É por isso que eles o respeitavam e queriam sempre estar juntos. Talvez um pouco porque você era o único que tinha dinheiro, mas isso não importa. Amigos a gente conquista e os inimigos a gente esmaga.
 
Apesar de nosso relacionamento muito próximo, nosso amor imenso por você, todos os bens que lhe proporcionamos, você partiu para o uso de drogas e não entendíamos o porquê. Quando tomamos conhecimento procuramos conversar, mas seus ouvidos não ouviam, seus olhos não viam, seu coração não sentia, sua vontade não era sua, sua dependência era total. Entramos em desespero e buscamos nas divindades o auxílio para livrá-lo dessa carga. Primeiramente, mandamos rezar muitas missas em todas as igrejas da cidade; sem resultado, procuramos diversos centros espíritas e, novamente, não surtiram efeito. Freqüentamos macumba, umbanda e todo o tipo de fetiche para que o livrassem da praga das drogas. Mais uma vez sem resposta. Freqüentamos outras igrejas, onde pastores fizeram sessões de descarrego, expulsão do demônio, troca do anjo da guarda, mas o demônio persistiu em ficar. Não é preciso lembrar o quanto foi gasto com tudo isso.
 
Enquanto corríamos atrás, nossos bens foram dilapidando-se até perdermos nossos empregos, nossa dignidade, nossa autoestima e até você com um tiro certeiro do traficante que você devia.
 
Meu Deus, meu Deus, onde será que errei?
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor

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