Segunda Chance?

Por: Maria Luiza Salomão

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Neste sábado, no Centro Médico de Franca, a convite da comissão do Cinema & Psicanálise, comentarei o filme Enough Said, na tradução sofrível, À procura do Amor.  Como é uma comédia romântica, colocaram açúcar danado no título. 
 
Mas o filme é bem pé-no-chão: pessoas nada extraordinárias, que não vivem situações extremadas, nem estão em fronteiras psicopatológicas. O tema retrata temas importantes cotidianos, da vida em comum. 
 
Eva (Julia Louis-Dreyfus) é massagista e divorciada, tem uma filha adolescente, prestes a sair de casa para cursar a Universidade. Sua melhor amiga, Sarah (Toni Collette), e o marido Will, a levam a uma festa, esperando que Eva encontre alguém. Eva conhece Albert (James Gandolfini), divorciado e na mesma situação de Eva, com uma filha a deixar o ninho vazio. Na mesma festa, Eva conhece a ex-esposa de Albert, Marianne (Catherine Keener), mas não sabe, então, que ela é ex-mulher de Albert, e a aceita como cliente, na massagem. 
 
Albert não agrada a Eva, inicialmente, por estar acima do peso; mas ela se surpreende, atraída por algo charmoso e sexy nele, e começam um namoro.
 
Albert, ao perceber a hesitação de Eva, adianta, no primeiro encontro, seus defeitos, como se, “gatos esfolados”, eles pudessem “pular etapas”, e não se queimassem novamente. Há erotismo entre os dois, cativante. Eva parece não ter aprendido com o primeiro casamento, e comete grave erro, colocando o relacionamento em risco. 
 
As várias sinopses apontam o erro de Eva, mas prefiro não nomeá-lo. Afinal, a diretora leva meio filme armando a encrenca. 
 
Foco aqui uma cena de Eva e Sarah, que vive um casamento ruim com Will. Eva formula a pergunta:
 
- se você pudesse saber de todos os defeitos de quem lhe interessa e fosse capaz, assim, de evitar um relacionamento ruim, você buscaria essa informação? 
 
Pelo sim e pelo não, a resposta pode nos render boa conversa. É o leitmotiv do filme. 
 
Há um jantar de despedida da filha de Eva, Ellen, com os amigos Sarah e Will; o pai de Ellen, Peter, e sua segunda mulher, Fran; e Eva, um tanto desconfortável. Peter, ex-marido de Eva, pede mais pão para o garçom e o ex-casal (Eva/Peter) discute. Eva relembra um impasse o consumo de pães e bolachas - quando eram casados. Fran, atual mulher de Peter, lida de forma diferente daquela com que Eva costumava agir com Peter. Eva se espanta.
 
Situações banais vividas em um casamento. Mas, um defeito considerado grave em um relacionamento, por um dos cônjuges, não necessariamente será grave em outro relacionamento. As pessoas podem criar novos pares, e se comportarem diferentemente. Cada relação é única, as pessoas mudam permanentemente, e no contato com outros seres. 
 
Sarah/Will mantêm um péssimo casamento, projetando suas insatisfações fora do circuito da relação conjugal, na relação com a empregada, ou na obsessão de Sarah com mudança de móveis na casa. Às vezes o divórcio é oportunidade de busca de novas relações e, assim, novas aberturas para o desenvolvimento da personalidade.
 
Como construir nova intimidade quando se viveu experiências negativas prévias? 
 
O filme se beneficia do desempenho de todo o elenco, da química dos atores Gandolfini/Louis-Dreyfus, Albert/Eva. É filme de entretenimento e oportunidade de reflexão sobre o que é fundamental na relação íntima e duradoura. 
 
Depois de experiências mal sucedidas no relacionamento, esperamos ser acolhidos ser o que se é. Com Eva/Albert, torna-se crucial saber se um erro, ético, destruirá uma relação. A diretora aposta na solidez do amor (amizade) que pode resistir. Há quem se poste, rígido, e não perdoe erros. Sem segundas chances, um casamento (ou namoro, ou amizade, qualquer relação) pode perdurar?
 
 
ESCRITORA E DIRETORA
 
NICOLE HOLOFCENER 
 
Nascida em New York, 55 anos, a diretora e escritora é divorciada e mãe de dois filhos; diz ser mais difícil cuidar deles do que fazer filmes. Sua mãe, Carol Joffe, decoradora de cenários de filmes, se casou com um fiel auxiliar de direção de Woody Allen Charles Joffe quando Nicole tinha 8 anos. Seu primeiro trabalho, assistente de produção nos filmes de Allen, foi arranjado pelo pai adotivo. Mas ele a desestimulou a seguir carreira, ao ver um dos seus trabalhos na Universidade de Columbia. Joffe, que se tornou um grande fã de Nicole, morreu em 2008. 
 
Podemos sentir o timing de Allen nos filmes de Nicole. Um artigo no The New Yorker afirma que há enorme ambiguidade em torno da diretora. Quem vê seus filmes a nomeia “diretor favorito”, mas há quem não a conheça. Nas palavras do articulista, Nicole não é esotérica nem faz filmes experimentais; ela possui habilidade em articular o “óbvio inefável”, e conclui o artigo sobre a obra de Holofcener afirmando que ela nos conduz aos nossos melhores instintos, não aos piores. Em minha opinião, é o que a diferencia na comparação com os filmes de Woody Allen.                                                                       (SM)
 
 
FILME
 
Título:  À procura do Amor
Diretor: Nicole Holofcener
Atores : Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener mais
Gênero: Comédia
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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