‘Nossa Senhora dos Cárceres’

Por: Sônia Machiavelli

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É sob o signo do inusitado, do movimento espiralado e descendente, do sonho ( às vezes do pesadelo), que as dez narrativas de Nossa Senhora dos Cárceres, de Alexandre Bonafim, são apresent das ao leitor. À exceção da história que batiza a obra, as outras nove nos mostram um narrador em terceira pessoa, que meticulosamente vai caracterizando o protagonista- de fora para dentro.
 
Na sua trajetória solitária o personagem principal ora vaga na direção dos subsolos, dos porões, entre meandros, descendo degraus “rumo ao centro da terra, por um tempo incontável, impreciso, eterno”, como o nonagenário Antônio de O Colecionador de Retratos. Ora enxerga de repente no espaço ao redor algo que nunca tinha visto, embora se mantivesse o tempo todo a um palmo de seu nariz, o que ocorre ao “ homem honesto, solteiro e solitário, trabalhador e, por mais infame que pudesse parecer, poeta”, do conto A Estátua. 
 
O protagonista pode ser a pianista cujo olhar duela com o de um leão, no palco de um teatro cuja plateia está lotada por anões e anãs impecavelmente vestidos a rigor; o anônimo que sai de casa para as ruas e acaba encontrando sua própria sombra numa calçada; aquela Joana que volta das ruas e ao entrar em casa fica atônita com um unicórnio plantado na sala; o trabalhador robotizado de nome emblemático- Ambrósio Cerebelo Pereira; dois seres em um, novo e velho, revivendo em Noturnos, narrativa elíptica e hermética, um desafio mítico, atemporal; a mulher que desliza como seu gato pela história, até fechá-la com duas frases que poderiam figurar um aforismo: “Até então, nunca soubera, mas o amor era apenas isso. Uma tortuosa pata de sangue e mel, lâmina de luz e trevas”. 
 
Seres marcados principalmente pela perplexidade, as criaturas de Bonfim estão sempre sós e sua interação com o outro se faz de forma incompleta, como se pode ver no conto mais delicado e lírico de todo o conjunto, O Peso do Grão. Aliás, neste texto deslumbrante, onde jovem barista demonstra seu talento incomum para sofisticadas infusões, o equilíbrio na construção formal e as potentes sugestões sinestésicas levam o leitor a sentir a perfeição da obra de arte quando esta chega ao ponto em que nada deve ser suprimido ou acrescentado.
 
Nossa Senhora dos Cárceres, escolhido pelo autor para fechar o volume, reúne de forma compacta sintagmas semeados nas histórias anteriores e que sugerem oclusão, impossibilidade, prisões, subterrâneos. Um homem que “perambulava à toa, absorto e distraído pela rua iluminada”, vê-se subitamente empurrado para “um recinto demasiadamente escuro”, e depois para “um grande abismo, uma fossa por onde a escadaria descia sinuosa.” Nesse despencar pelos círculos do inferno, o narrador em primeira pessoa revela sua estupefação diante do que não entende. Não há lógica, não há explicação, não há sentido para o que acontece. Diante do nonsense e do surreal, apenas solidão, dor e espanto. 
 
João Anzanello Carrascosa, na orelha do livro, refere-se a um fato comum a todos os contos: “os encontros entre os protagonistas e algo que inesperadamente transforma a sua existência”. No prefácio, Vanessa Maranha comenta, entre outras coisas, que “do ponto de vista formal, Alexandre Bonamim é pródigo na filigrana, donde se entrevê a agudeza de um Nabokov, que aos literatos aconselhava: “acaricie o detalhe.” 
 
A mim, enquanto leitora, chamaram a atenção os recorrentes registros sobre a passagem do tempo, em frases que sugerem a dura realidade com a qual nos defrontamos a todo momento, pois lidar com o finito é difícil; em nosso âmago ansiamos pela eternidade. Em O Leão e a Pianista o narrador diz que “a música era um pequeno grão de eternidade, semente frágil capaz de abalar a carne, as cordilheiras, humilhando o tempo, a fuga dos instantes”. Antes, no conto que abre o volume, o protagonista lembra que “o pai sabia que toda fotografia era um exercício de morte” e depois faz uma alusão a ser “acorrentado no presídio dos instantes”. O trabalhador de A Estátua percebe subitamente que “o existir possuía, em suas entranhas, uma cicatriz de cicuta e ácido, borbulhando na alma um desassossego repleto de possibilidades”. A barista de O Peso do Grão conclui que “A vida era uma leve aragem sobre o nada”. Também me impressionaram algumas formulações metalinguísticas, uma delas no conto O Leão e a Pianista. Diz o narrador no meio da história: “Mas estamos no meio de uma narrativa e outro recurso não há. Somente as palavras podem designar o mínimo de nossa pobreza humana. Por isso, servimo-nos delas para poder pelo menos nos aproximar do que, no fundo, nunca é alcançável.” Não sei bem por qual razão, ao ler este trecho me lembrei do artista plástico Nuno Ramos, que disse recentemente sobre a gênese de sua arte: “É no estado intermediário da secagem, híbrido ainda de morte e promessa, que a vida guarda seu segredo.”
 
Voltando a Vanessa Maranha, é ela quem nos alerta e esclarece, com seu aguçado senso de observação, sobre o novo livro de Alexandre Bonafim. Antes de sentenciar que “é prosa da melhor cepa”, avisa: “Não é leitura que se devende numa primeira mirada”. Também encaro dessa forma. Nossa Senhora dos Cárceres (Editora ViraLetra) é para ser descoberto em suas muitas camadas; única leitura é insuficiente diante da elaborada textura da forma e profundidade dos temas. Acredito que serão as plurais leituras que dimensionarão cada vez mais a riqueza e atemporalidade do livro. Para usar um verbo recorrente na obra, e portanto caro ao autor, as diferentes abordagens espargirão os múltiplos sentidos captados pela sensibilidade e vivência dos que amam a literatura na sua forma pura como nos é oferecida neste belo e instigante livro, lançado na última terça-feira em São Paulo. 
 
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PS - Alexandre Bonafim é mineiro, mas viveu em Franca durante algum tempo e aos 32 anos fixou residência em São Paulo, onde concluiu doutorado em literatura na USP. Tem muitos títulos publicados no Brasil e em Portugal. Sua produção abrange poesia e prosa. Atualmente mora em Goiânia e leciona literaturas de língua portuguesa na Universidade Estadual de Goiás, unidade de Morrinhos.
 
 
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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