Acendedor de sol

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Era noite.
 
A manhã dormia profundamente, lá nas costas do mundo.
 
Ouvido repousando no seu colo, eu escutava a música terna e lenta, composta pelo seu coração preguiçoso. Era tépido o ninho onde minha cabeça cochilava, e até os fios de meus cabelos o sabiam. Os olhos que velavam meus olhos oclusos e meu corpo eram tépidos e amorosos. E a voz que me ninava parecia vinda de uma boca de dragão e de anjo: quente e santa. As mãos de nuvens que subiam e desciam meu rosto e meu ventre eram asas de pintassilgo – carícias de passarinho pousado na janela, à tardezinha.
 
Os argumentos da mulher eram sólidos.
 
Ali o eldorado fazia jorrar mel e dava voz às estrelas. Ali as fadas jogavam bugalho, dançavam cantigas de roda, trepavam na mangueira. Elas todas à espera de minhas vontades. Ali as vassouras tinham sido confiscadas. As bruxas viajavam, em missão do reino, por galáxias longínquas. Algumas se acotovelavam em nave espacial, cortavam os céus, em trabalho obrigatório. Deveriam estabelecer, em definitivo, se era de ouro, se era de prata o sétimo anel de Saturno.
 
Os argumentos todos da mulher vinham acondicionados em cestos novos, tecidos e trançados com cascas da árvore da verdade.
 
Ela alinhavava as cascas: aqui se convive com a felicidade e com o prazer; aqui se colhem favos e não há picadas; aqui é residência do calor e do canto. 
 
Lá fora, ela mostrava, ficava a casa da escuridão e do medo. Lá fora o frio passeava no meio de nevoeiros e de espectros.
 
A mulher tinha razão.
 
Mas a razão tinha razões outras e muitas.
 
Então, transpus a porta, saí mundo afora.
 
Fui acender o sol.

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