O sapato e a meia

Por: Chiachiri Filho

Nos velhos arraiais brasileiros não podiam faltar os padres, os alfaiates, os taberneiros, os boticários, os barbeiros, as prostitutas , os seleiros e os sapateiros.

Os sapatos, evidentemente, não eram de boa qualidade. O processo de curtimento era precário e o sapato, a botina, os sapatões, as polainas saíam grosseiros e até meio deformados.

Em Franca, a produção artesanal de calçados intensifica-se nos finais do século XIX. Os melhores sapatos eram feitos de couro de veado campeiro. O resto era chinelões e sapatões.

Nos anos 20 do século XX, Carlos Pacheco de Macedo e seu sócio Joseph Marx conseguem produzir no curtume Progresso um couro de alta qualidade. Com a implantação da fábrica de calçados Jaguar, tem início a indústria de calçados de Franca.

Não pense o prezado leitor que o calçado produzido em Franca tinha as mesmas qualidades do produzido em nossos dias.

Lá pelos anos 50 do século passado, os sapatos de Franca ainda furavam o nosso calcanhar com seus pregos afiados. Era preciso ter em casa um pé de ferro para achatar as taxinhas que sangravam os nossos pés. Não havia tênis, mocassim, sapatênis. O consumidor precisava contentar-se com o sapato social ou, então, com a dura e duradoura botina.

Em Franca houve também, na década de 50, uma fábrica de meias situada na Avenida Rio Branco (onde hoje funciona o MSM). Denominava-se COTAIA. Não sei quando e nem porque a fábrica fechou. Dela eu ainda me lembro da sua sirene que era forte e estridente. Mas, o produto, como o de outras fábricas congêneres, não era de boa qualidade. Não tinha a elasticidade das meias atuais. Para ajustá-las às canelas, era preciso molhá-las. Logo elas secavam, desciam e começavam a ser engolidas pelos sapatos. Enfim, era um inferno. A gente andava um pouco e logo a meia começava a ser engolida. Às vezes, não adiantava puxá-la. Era preciso parar, tirar o sapato, ajustar a meia e esperar que ela fosse engolida novamente. Para os homens, havia até um elástico que ligava a meia à cueca e assim evitavam que ela fosse engolida pelo sapato. Para a molecada que não usava calça comprida ou cueca, o jeito era, de tempos em tempos, parar para o ajuste da meia.

Sapatos e meias evoluíram e hoje combinam perfeitamente e nem o calçado fere os nossos calcanhares e nem as meias desaparecem em seus interiores. Portanto, salve salve a tecnologia.
 

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