MISTUREIRA...

Por: Maria Luiza Salomão

Inquietação

Toda vez que o circo levanta a sua tenda, quero seguir a trupe.

Toda vez que um desconhecido me sorri, sinto vontade irresistível de acompanhá-lo, sem saber aonde.

Toda vez que recebo um convite súbito para romper com minha vida, tenho o ímpeto forte de arrumar malas.

Toda vez que me decido por um caminho e viro as costas a outro, me sinto valente, inquieta, angustiada e serena, morro de medo, remorso, tudo junto.

Deslocamentos me desvelam, e, paradoxalmente, me condensam.

A esperança-leoa

Nos dias de hoje precisamos de uma esperança-leoa, indomável, caçadora, que proteja até a morte o território das suas futuras crias, musculosa.

Uma esperança sanguinolenta, que não se entrega, que morre em batalha, esperança-corisco. Selvagem, destemida, veloz na corrida contra o tempo, contra a covardia, contra o cinismo, contra os demônios a corroer a frágil alma.

Esperança-leoa em cada bom espírito, que resguarde a esperança de que a humanidade, através de tudo, sobreviverá.

Amor?

Então é assim? Questão de ampliação de alma? Compactar, acomodar o transformado?

Nada de deficiência, mas de incontinência? Questão de vaso, dilatar a alma na capacidade de amar.

Nada de defeito no amar (amor envenenado, errado, ruim, como leite azedo, ou semente estragada, genética ruim).

Aumentar a possibilidade de reter, de ampliar a reserva, o armazenamento, para usar, distribuir.

Amar para, enfim, intensificar o viver.
 

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