Questão de gênio

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A mocinha loira apresentou-se no altar, enfeitada para a cerimônia, como uma noiva costuma estar. Um arranjo artificial de flores de laranjeira e um véu curto todo franzido emolduravam o seu sorriso inocente e feliz. Ela ainda não conhecia o lado cruel da vida. O noivo, apesar de trajado adequadamente, não fazia uma boa figura. Muito magro, baixinho, com uma calvície apontando, rugas na testa entre os olhos, deixava transparecer uma tensão além da necessária.

O casamento ia bem, filhos às pencas, mas como ela amava cuidar deles não se importava com a irritação constante de seu marido. Quietou-se, pois ele era o provedor da casa e muito autoritário. Ele possuía um ranço de maldade em sua fala que desmotivava qualquer pessoa. Era negativo, crítico, de mau humor constante. Com o tempo, acostumou-se a beber demasiadamente e perdeu toda sensibilidade que talvez tivesse tido um dia. Ácido, não valorizava ninguém, e sempre achava um ponto para diminuir as pessoas. Provocava discussões e entrava em contendas. Sua esposa afastou-se dele, ocupando-se, com prazer, dos filhos.

Uma noite, ela preocupou-se com a sua demora em voltar para casa, mas logo lhe informaram que ele tivera um mal súbito, na casa de outra mulher. Com a raiva e a frustração que tinha dentro dele e a vida desorganizada que levava o fato era provável, uma morte anunciada.

A viúva se recuperava quando começaram a chegar cobranças de dívidas, no nome dele, de carro, móveis, roupas, joias as quais ela fora obrigada a pagar, com seus parcos rendimentos, embora não conhecesse estes objetos. Com leveza e determinação ela foi vencendo as dificuldades, conservando um sorriso não mais ingênuo, mas expressivo. Seus filhos encaminharam-se para o bem, dando-lhe muitos netinhos que ela cuidava com zelo, carinho e que faziam sua alegria. Somente um a entristecia, pois se encontrava aprisionado, condenado por desavença, desacato e agressão. Foi o único que saiu ao pai.

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