Moça do cabelo verde

Por: Maria Luiza Salomão

Sentadinha, na rodoviária paulistana, eu a vi...passando de earphone, abstraída no celular...de jeans, camiseta, cabelos pouco abaixo dos ombros, talvez pelos trinta anos. O cabelo brilhava em tons verdes e talvez azuis marinhos e celestes pelo meio. Linda!

No barulhento cinza paulistano, em meio à indiferença geral, ela capturou meus olhos. Passou... ninguém a olhou...

Fiquei pensando nas distâncias de costumes. Minha juventude, que não sinto distante (uai!), era de uma moda simétrica – sapato e bolsa da mesma cor, blusinha de ban-lon maguinha curta, com outra da mesma cor, manga comprida. Cabelos endurecidos para não voarem ao vento, com laquê, cabelos lisos: alisados peremptoriamente se a mulher nascia dotada de cachos naturais.

Hoje as direções são quase infinitas: vale um tudo na moda. Brilhos, não se usava de dia. Mas a moça de cabelo verde brilha, ela mesma, e, puxa! Ninguém a olha...

Será que as pessoas perderam capacidade de se espantar? Li que talvez a poesia hoje tenha maior penetração. Poesia é sintética, provoca espanto. Poluídos com palavras clichê, blá-blá-blá atômico, atomizado, fragmentado, vemos a realidade recortada em pedaços: pulamos da guerra para moda; de naufrágios de imigrantes para exposição de arte; de corrupção nunca-dantes-vista-no-país para o último blockbuster mundial.

O bom dessa fenomenologia recortada é que o leitor fica preparado para ler e costurar eventos, ideias, pensamentos. Ou não, e daí quem fica recortado é o pobre “eu”: perde-se no caos.

Atento ao contemporâneo movimento, o leitor pode estar, hoje, próximo à linguagem poética, que exige a fina captação do não dito, do silêncio entre palavras, de um fio que costure o não dito, o escrito. A prosa ficou longa demais, toma tempo demais, em época em que tempo é luxo!

As pessoas, hoje, estão treinadas para decodificar ícones, senhas, portais virtuais, para antecipar, para criar um mundo paralelo. São muitos os mundos paralelos...

Cabelo verde era coisa de marciano! Marte, planeta inatingível. E, hoje, estamos quase lá, e, talvez, via Marte, em direção ao espaço sideral. Ninguém se espanta com as aventuras siderais. Já virou página do Jornal Nacional: noticiário. Eu me espanto. O Túnel do Tempo, que eu adorava!, pode até ser superado. Pode demorar um pouco ainda, mas já que se teletransporta coisas, quem sabe pessoas! (hein?!?!).

- Vou para Irlanda agora, gente, entro numa cabine e pronto! Estou passeando pelas ruas de Dublin.

Mas...voltar ou ir adiante no tempo? Ah, nisso não acredito. A psicanálise me dá provas da existência de que o passado é coisa eterna, imutável, se a pessoa não muda, não quer mudar. Ou o passado muda tanto, que não dá para voltar em um tempo que não existe mais, eternamente mutável, que foi transformado. O passado é virtual tanto quanto o futuro.

Seria o futuro manipulável pelo teletransporte? (isso é assunto para outro texto virtual)

A moça de cabelos verdes esverdeou minhas ideias... Ninguém nasce com cabelo verde, mas... pode-se viver e morrer siderado por ideias coloridas. Posso morrer com cabelos verdes. Por que não?
 

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