Com toda sinceridade

Por: Sônia Machiavelli

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Devo ter gotas de sangue cigano, traço genético de povo nômade, alguma herança que abomina o tédio. Basta que me acenem com oportunidade de viajar para que uma chama se acenda dentro de mim. O destino pode ser qualquer um: Oropa, França ou Bahia; estou sempre pronta. O entusiasmo brota quando a data é marcada; a expectativa cresce à medida que o dia se aproxima; a euforia se instaura da partida à chegada e permanece na estadia.

Neste ano tive oportunidade de conhecer em Goiás a fazenda dos avós maternos de meu neto João. Em duas ocasiões, na Páscoa e no feriado de Sete de Setembro, lá fomos nós de mala e cuia, dúzia de brinquedos, no meio deles duas espadas de plástico. Ou melhor: duas armas poderosas/ do grande guerreiro João/ cinco anos de idade/ e muita imaginação.

Foram dez horas de viagem parando aqui e ali – primeiro em terras mineiras e depois goianas. Para mim, que nunca me bandeara por aquelas plagas, tudo era novidade, da vegetação à geografia, do linguajar à culinária, das construções às gentes desse nosso Estado ainda pouco povoado. O cerrado a se perder de vista com seu bioma típico ia me mostrando de vez em quando caraíbas floridas, manchas amarelas na paisagem ocre onde de repente surgia uma casa com janelas de madeira cercada de nelore por todos os lados. “Gado branco, vó, igual ao do meu avô”, me explicava o neto. No mais, árvores de pequeno porte e caules tortuosos; muitos pequizeiros; buritis à Guimarães Rosa; e uma variedade de espécies de folhas grandes que pareciam recobertas por fina poeira dourada. Assim o outono-inverno no centro-oeste.

De vez em quando, para alvoroço nosso e mais ainda do João, bichos apareciam na estrada, o que representava inspiração para muitas histórias. Então o menino largava os dinossauros de plástico que lutavam no pleistoceno formado pelas alças da cadeirinha e fixava o olhar lá fora. Era a cobra com guizo na ponta da cauda que o vovô Ronaldo havia atropelado; o lobo negro que a vovó Maria Helena vira à noite perto da porteira e descrevia em detalhes; seriemas assustadas de pernas tão finas que pareciam prestes a quebrar; maritacas ruidosas em bandos verdes ; tuiuiús branquejando copas de árvores; casal de onças que alguém lá da Altiva tinha visto cortando capoeira pelos lados da divisa com o Nestor. Ouvidos atentos a tudo, espada azul da Disney na mão, João golpeava cobras, lobos e onças e assim os quilômetros iam sendo vencidos quase sem a gente perceber.

Depois, bem depois, surgia a entrada da fazenda enfeitada pelas primaveras e sempre-vivas. E novos encontros. Era a cachorra brava responsável pela guarda da casa; as angolas onomatopaicas se reunindo debaixo dos imensos flamboyants ainda desnudos por conta da falta de chuvas; as galinhas comuns bicando na direção dos poleiros; os gansos com passo deselegante e grasnado agudo a caminho da lagoa, nos convidando a pensar na audição acurada que servia de aviso aos guardiães do Capitólio.

Dias inesquecíveis, aqueles; dos tais, memoráveis. Além das surpresas da fauna e da flora durante o dia, havia as estrelas à noite. Sentar-se ali no grande gramado e olhar o céu noturno era sentir o silêncio só possível em lugar remoto, léguas afastado de centros urbanos. Há muito tempo não contemplávamos as constelações e João, ao ouvir falar da Ursa Maior, sinalizou: no desenho da Tina, a menina havia falado da ursa que ficava no céu; como era isso, vovô, vovós, pai, mãe ?! Depois das explicações lá se ia ele, imaginação repleta de feitos, enfrentar ursas imaginárias com a espada prateada que trouxera da Torre de Londres.

Mas o que é bom dura pouco e chega o dia de voltar. Na segunda vez, de avião, pois na anterior havíamos nos cansado demais. Malas arrumadas, vem a checagem geral da mãe de João, cuja expertise nessas artes é admirável. Seu engenho é daqueles que causam espanto; nem sei como consegue arrumar tudo, de roupas a remédios, com método tal que lhe permite reunir em pequeno espaço um armário inteiro. E , na vinda, até as espadas, atual brinquedo favorito. Acontece que no retorno, bem fechadas as malas, já na hora em ponto de sair, o guerreiro se deu conta de que suas armas inseparáveis tinham ficado no quarto. Foi correndo buscá-las e suplicava de tal forma que não resisti; dei um jeito e consegui colocar a prateada no bolso externo da minha mala. Mas a azul não cabia e Milena estava irredutível: não iria abrir mais nenhuma bagagem. A espada azul o vovô levaria quando fosse a Franca e ponto final. João ainda tentou argumentar dizendo que a carregaria consigo no avião. Mas ao ouvir a mãe lhe dizendo que era grande o risco de a tomarem dele antes do embarque, desistiu contrafeito.

No aeroporto de Brasília, depois de espera longa, ouvimos a chamada para Ribeirão Preto. Despedidas, abraços, recomendações. Chega a vez dele, todo terno, amoroso, o que é bem de seu feitio:

_ Vô, brigado, tchau, com Deus. Quando cê vai lá em Franca?

_ Ah, agora vou demorar bastante, só no fim do mês que vem.

Ao ouvir a resposta, o menino olhou avô, avós, mãe e começou a chorar. Lágrimas grossas , que eu adivinhava quentes, rolavam pela face dele. Comentei com Milena: “O João é emotivo, amoroso; está chorando porque vai demorar a rever o avô!” E chegando pertinho dele, confidenciei:

_ João, acho tão bonito você demonstrar seus sentimentos; e chorar porque vai sentir muita saudade do vovô...
Me olhando surpreso, ele secou a face com as costas da mão direita e devolveu:

_ Não é por isso que estou chorando.

_ Por que então?

_É que vai demorar muito para meu avô levar minha espada azul pra Franca!
 

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