O Robótico Eu

Por: Maria Luiza Salomão

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Nos filmes de ficção científica o mote é este - a máquina vence o humano, na inteligência.

Não é difícil vencer o humano: basta uma overdose de perversão e a humanidade esvanece. O eu emburrece, tomado por interesses que se fixam na ambição desenfreada individual; na ensandecida ânsia pelo poder; no desatino tresloucado das paixões, qualquer uma.
A máquina ganha por estar isenta, inócua, inexpressiva, empedernida em suas engrenagens previsíveis e programadas. Sem paixões.

Nos filmes de ficção científica há a denúncia de seres possuídos por sentimentos centrados exclusivamente no eu dos chamados humanos. Quando o eu se julga maior do que tudo que o circunda, do que aquilo que o alimenta espiritualmente - física, social e psicologicamente - o eu é máscara, casca. O eu se torna oco, robótico, se acreditarmos ingenuamente que tudo pode ser controlável, manipulável, segundo nosso desejo e vontade.
O problema de se centrar no eu - que se julga gigante - é que o eu se torna previsível demais, perfeitinho demais, e, ao contrário das máquinas, não há peça de reposição para o humano. Quando há pane no mecanismo, é catástrofe total. A chamada “loucura”.

Passar de inumano para humano é tarefa de uma vida. Alguns alcançam, na curta passagem pela vida. Nem todos. Há os que morrem acreditando dominar o mundo, devotados aos altares que constroem: Dinheiro, Poder (de destruição ou construção), tráfico de influências; bruxarias e feitiçarias a conferir uma aura de fascinação às suas ações. Acreditam possuir poder divino, o que não é privilégio da época tecnológica, instrumental e utilitarista, em que vivemos. Os gregos, os faraós, os reis, e até alguns papas na Idade Média, por séculos e séculos, acreditaram no parentesco dos humanos com os deuses, por eles fabricados.

Quando leio Clarice Lispector, Guimarães Rosa, eu posso entender o esforço da contracorrente - dos místicos. Místicos são aqueles que compreendem que há algo maior do que o eu. Acreditam no mistério da Vida. Mistério que habita o mundo natural, não sobrenatural.

Centrados nos eus individualizados, sobreviveremos como espécie?

Somos imperfeitos. Mas talvez seja a imperfeição a movimentar a humanidade, afinal. O eu é permanentemente ameaçado por ambições espúrias: palavra que reúne dialeticamente, ambições naturais, bastardas e ilegítimas. Criando ilusões de legitimidade, de naturalidade das ambições, o mundo se movimenta para frente e para trás, patinando, às vezes.

A humanidade anda de bicicleta, bamboleante, para lá e para cá. Reconhecemos o cintilar da luta pela superação do eu, em grandes gênios: comparem sua vida pessoal e suas grandes realizações.

Capengas, no entanto, os humanos são prodigiosos. Palavradas as maravilhas, gota a gota, em linguagem refinada, (re)construímos humanidades perdidas e cariadas. Mas é com tamanha vergonha e displicência, atraso e falta de disciplina!
Saravá!
 

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