Dois irmãos

Por: Angela Gasparetto

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A chuva sempre caía fina naquele lugar. Os pés ficavam constantemente molhados e sentia-se enregelar os ossos.

Caminhando juntos todas as madrugadas, os dois irmãos pareciam não sentir aquele frio.

A lua ainda não tinha dado lugar ao sol e os dois já saiam para o trabalho da lavoura.

No escuro da estrada, só se percebia o tremular da luz dos seus cigarros acesos.

Caminhavam lado a lado com as enxadas nos ombros, os chapéus cobrindo os olhos e botinas furadas em toda extensão dos pés por causa dos muitos calos.

Caminhavam o andar animado dos trabalhadores decididos. O desejo era chegar logo, iniciar logo o trabalho, terminar o serviço do patrão.

A roça de arroz se estendia imensa na vista deles, mas não os intimidava.

Tinham força, tinham saúde e um deles tinha uma mulher grávida em casa que o esperava.

A chuva cessava de repente naquele lugar e sobrava apenas o vento frio do amanhecer.

Começavam o trabalho conversando animadamente e só se ouvia naquela imensidão de arrozal, o som das enxadas e o sussurro da conversa dos dois.

Duas horas depois o sol começava a aparecer. Os dois já molhados pelo suor e não pela garoa, paravam um pouco o trabalho e contemplavam aquele espetáculo do universo.

Em silêncio, os dois, mãos segurando as enxadas, pés apoiando na mesma.

Após aqueles minutos, voltavam como que ensaiados, ao mesmo tempo para a luta do dia.

Mais duas horas de trabalho ininterrupto e agora uma parada para a merenda das 08h30min.

Sentados e apoiados em uma árvore, os dois comiam em silêncio e apreciavam o restante do amanhecer. Os galos cantavam ao longe, as vacas mugiam atrás dos montes.

Anos mais tarde com o êxodo rural, também vieram morar na cidade. Nada e ninguém os fizeram trabalhar em outra coisa a não ser na lavoura.

Nada, nem ninguém os separaram. Ficavam horas conversando sobre o passado.

Na doença, um cuidou do outro. Hoje os dois se foram. Mas uma verdade ficou: Eram felizes, pois tinham o amor fraterno e a terra por testemunha.
 

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