Amor – criação?

Por: Maria Luiza Salomão

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As fontes dos sentimentos são misteriosas... nascem no corpo, mas criam leitos e caminhos, como os rios e os lagos, e deságuam em mares de desconhecimentos...

As fontes fluem, espraiam, avolumam, criam margens, extremam as bordas. Também estagnam e secam. Secar, desidratar os sentimentos, parece ser um jeito de parar a e-moção (que tem movimento no átimo da palavra). Sentir é um fato, diz Clarice Lispector, e não se interrompe o fluxo do sentir, mantendo a direção – parado quando o sentir fenece, mas sempre para frente, quando o sentir se movimenta.

Um ódio calado e surdo é puro veneno, pode eclodir em lavas ou solidificar, glacial. Amor amarga, acidifica se não se movimenta. Tristeza não reciclável vira ressentimento. Inveja é blindagem, a formar estalagmites ou estalactites arcaicas, em cavernas sombrias onde o acesso é impossível, por vezes. Vemos a inveja nos outros, não em nós. Não ousamos bulir nela, nem em nós, nem nos outros.

Amor brota do corpo: inventa caminhos, roteiros e se reproduz no modo infinitivo, em mosaico de tempos que se alteram a cada virada de esquina palmilhada pela alma, a depender dos encontros e desencontros. Assim:

- Maria ama José. Amou outros antes. Amores abandonados em meio a ranger de dentes, aos ciúmes tamanhamente estranhos (ódios espúrios). Assim, o amor de João esvanece, rebrota em Joaquim, e se vai; rebrota em Jorge, e seca; rebrota em José... Maria conhece amor igual/diferente aos anteriores - um olhar, um toque, uma febre, um frio na barriga: ama José.

- Maria quer amar José. Ela quis outros antes. Mas, com José, acredita, acredita. Espera, espera. Entristece, entristece. Decepciona-se, decepciona-se. Mas o amor segue, segue: curvas do rio que rodeiam a pedra, a criar funduras - de viver a crença, a espera, a tristeza, a decepção, a alegria, o reconhecimento, a inevitabilidade de repetir os mesmos trejeitos e trajetos...indo em frente, pressionada pelo manancial de amor, que não cessa de empurrá-la. Amor não tem volta, refluxo, mas futura além, acima, adiante, avante, acolá. De Maria, a vontade de amar José.

- Maria deseja amar José. Desejou outros, ela deseja, hoje, José. Não dá para medir se mais, se menos amor – pelos de antes, por José. Estocou desejo, como quem estoca vento? Não se estoca desejo, este que relampeja, que brilha e apaga, que cachoeira, que trovoa, que nuvem, que pássaro nos altos estelares. Maria reconhece o cicio dos sinais, ouve o chamado, o terremoto das carnes, a visionária aparição de José, no repente, a todo instante. Não chama, não clama por José. Ela se inflama e se flui, em ares e águas, em arrebentação intempestiva, repentina, ou em calma gotejante.

- Maria não entende o amor que tem a José: e não quer entender. Maria sofre por José, ao amar: dói plena. Uma coisa Maria não consegue: deixar de amar José. As palavras nada acessam essa fonte, não alcançam, não traduzem, não têm poder de seca ou de enchente. As palavras não amam José: Maria é que.
   

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