Tempo de mudanças

Por: Gabriel Careta

300292

Acendi o cigarro de palha e fiquei observando por alguns instantes o breve flamejar inicial da erva. Dei um longo trago, fazendo com que os efeitos entorpecentes do tabaco subissem rapidamente em meu organismo. Tonto e um tanto desnorteado, deixei a palha se apagar naturalmente e retornei o produto ao maço.

Olhava com admiração o dinâmico fervilhar de veículos aos meus arredores: atrás estava a então mutante Avenida Paulista, outrora símbolo do poderio socioeconômico paulistano, servindo hoje apenas de anteparo para minguadas manifestações populares e comércio de arte rastafári. À minha frente e logo abaixo encontrava-se a simbólica Avenida Nove de Julho, um corredor de prédios cujo fim perdia-se no horizonte. Os veículos, que me remetiam a criaturas de porte pré-histórico com carcaças metálicas, tinham, em sua maioria, os vidros fechados, seja para afastar os ares contaminados da grande metrópole, ou para reter o odor pudico dos caros perfumes italianos comprados por seus proprietários em viagens ao exterior.

Tempos de mudança exigem, mais do que quaisquer outros, a manutenção das tradições. Comigo não haveria de ser diferente. Há poucos meses havia deixado de ser um estudante e avançado para o status de efetivo colaborador da massa social. Como advogado recém-formado em S. Paulo, recebi uma drástica dose de mudanças. De uma pacata cidade perdida no cerrado paulista me transferi para a maior metrópole do hemisfério sul.

De romântico estudante passei a lidar com crápulas e juízes corruptos. Do Éden ao mundo de Baco. Uma bela recompensa para uma curta vida de esforços. Quando terminarão as provações sociais é uma pergunta cuja resposta me apavora.

O tabaco incandescente enrolado em palha é o que mantém o equilíbrio em meio a tantas alterações no harmonioso balanço que fora minha vida acadêmica. Um sopro de normalidade sob o estranho. A ordem dentro do caos. A tradição que teimosamente resiste à mudança.

Feliz que estava, saltei no trem da estação Trianon e voltei para casa.
 

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