Estamos todos em trânsito

Por: Sônia Machiavelli

300294

Duas vezes por semana eu o encontrava. Nem precisaria de relógio para saber que eram 6h45. No mesmo ponto da avenida arborizada, bem defronte de imensa pata -de-vaca, resvalávamos um pelo outro, ele na sua carroça, eu no meu carro. Estivesse a manhã chuvosa em janeiro, radiosa em abril, fria em julho ou escaldante em outubro, as roupas dele eram sempre as mesmas- encardidas, leves e amarfanhadas, como se o homem não sentisse a mudança das estações, e no corpo um possível termômetro marcasse indiferente a mesma temperatura.

Ele percebia quando o carro se aproximava e então levava o cavalo magro a se afastar para a direita, evitando o perigo dos atropelamentos, constantes naquela via expressa por onde tantos transitavam. Não era incomum assistir a acidentes que me deixavam mal o dia inteiro.

Fazia bem o homem da carroça em se precaver, seguindo pela direita em ritmo lento, até o condomínio pioneiro, onde nos separávamos - ele fazia a rotatória e entrava à esquerda. Eu seguia em frente. E tinha sido por conta desses poucos metros em que íamos num triz emparelhados que podia ir compondo sua imagem, um traço de cada vez, muitos traços sobrepostos ao longo de dois anos. Tinha barba rala, cabelos grisalhos, pele enrugada e curtida de sol. Suas mãos exibiam dedos longos que mostravam certa elegância na forma como segurava as rédeas.
A postura porém era a de quem vinha carregando muito peso ao longo da vida: a coluna encurvada, os ombros jogados para frente, a cabeça levemente pendida para a direita, como se observasse o trotar do animal.

Havia muita coisa na carroça. Caixas de papelão, pedaços de isopor, engradados de madeira, jornais, papéis de todas as cores e claramente já usados em embalagens. O homem deveria ser empregado de alguma usina de reciclagem e ia cumprindo assim um duplo papel. O de trabalhador que acrescia alguma coisa à sua renda minguada e o de agente que de forma indireta contribuía para a limpeza e conservação do ambiente urbano cada vez mais degradado. Será que teria consciência disso? Olhava-o e via-o como representante de outros milhões de brasileiros que chegavam à velhice ainda tendo de mourejar. Deveria levantar-se bem cedo para já estar àquela hora com a carroça carregada, imaginava. Fora jovem, provavelmente sonhara com algo melhor para si, o futuro havia chegado sem acréscimos. Se formara família, possivelmente todos andariam mais ou menos por aí, meio assim na pindaíba, fazendo para comer, da mão para a boca, pouco ou nenhum conforto e muitos danos no corpo, com certeza outros na alma.

Nossos encontros fortuitos e certamente unilaterais, pois só eu parecia prestar atenção a ele, de repente cessaram. Depois de dois anos o homem sumira. E não é que isso me desassossegava? Na certeza absoluta de passar pontualmente por ele às terças e quartas, levei o susto natural dos arrogantes ao não divisar a carroça na primeira semana de agosto. Bem provável que eu estivesse atrasada ou adiantada, procurei justificar. Mas veio a segunda semana e nada. Poderia ser que depois de tanto tempo ele tivesse mudado seu trajeto, ponderei com um sentimento de falta. Na terceira me pus a imaginar coisas: se tivesse ficado doente, haveria quem o cuidasse? Meu lado catastrófico aflorou na quarta: não era impossível que tivesse morrido. A esse pensamento me entristeci, porque a fugacidade de toda existência é algo que nos dói e acostumar-se à ideia, talvez só aos santos e aos néscios- duas categorias opostas e distintas.

Nem santa, nem néscia, foi com alegria que no final do mês reencontrei o velhinho. A carroça era outra, bem maior e recém-pintada. O carroceiro estava mais aprumado, semblante energizado. Segurava com a mesma elegância as rédeas ao cavalo que já não era o mesmo. Só a carga permanecia, mas houvera melhora considerável no conjunto. Buzinei de leve ao passar por ele, que deve ter intuído minha satisfação por vê-lo vivo e bem. Olhou-me e também sorriu timidamente pela primeira vez.

Aquele momento de discretos afetos teve duração de segundos. Metros depois de o ultrapassar, ouvi um estrondo. Olhei pelo retrovisor e vi que ele tinha sido atingido por um pesado caminhão no meio da rotatória perigosa. Estacionei no acostamento, desci, voltei com outros que também paravam. Ainda cheguei a vê-lo com vida. Seus olhos eram verdinhos como o broto comprido de uma primavera que com ironia acenava vida no canteiro central. Fixavam o céu, no instante em que uma névoa acinzentada tudo nublou. Inclusive meu espírito.
 

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