Sonatas

Por: Gabriel Careta

300936

"Eu amo outra". Falei para K. enquanto contemplava passivamente o rubro vinho posto em minha taça. Era tarde da noite e no gramofone ouvia-se Clair de Lune, de Debussy.

K., achando que estava fazendo alguma brincadeira de mau gosto, forçou um riso e deu uma sarcástica resposta monossilábica. Ao ver meu cenho fechado e minha expressão vaga sem ânimo jocoso, sorveu um gole da bebida e encostou delicadamente o queixo no meu peito. "Quem é?" Perguntou com a voz fraca.

"Uma cliente. É também minha amiga há um tempo. Já estivemos juntos, mas agora não mais." Respondi sem deixar transparecer qualquer emoção.

"Ela é mais bonita do que eu?"

"Não, mas não é essa a questão. É uma mulher com quem senti uma conexão extremamente intensa. De certa forma ainda sinto. Não é justo que você não saiba disso. Não quero que você se sinta enganada". A bela melodia da Clair de Lune serviu apenas para deixar as palavras ainda mais estarrecedoras aos ouvidos de minha companheira.

A conversa se desenrolou e eu não prestava muita atenção ao que dizia e ouvia em resposta. Pensava apenas em A. e no que havia me levado a amá-la daquele modo. Certa vez comparei nossa relação com o perfeito alinhamento entre Marte e Vênus, Deuses estes enfim livres das teias invisíveis do nevasto Vulcano. Adorava comparar a vida real com a mitologia greco-romana. Pensava que o amor podia ocorrer de duas maneiras: a primeira, mais efêmera, é aquela em que se ama por alguns curtos instantes, encerrando-se no clímax regozijante de um flagrante coup de foudre. Banal, simples, envolvente e, por fim, insignificante e extremamente prazerosa maneira de amar. Amava cerca de 5 mulheres dessa maneira. A segunda, mais complexa, não há tempo ou ato que destrua ou amenize. Não preclui e não prescreve. Era assim que amava A.

Acendi um cigarro. Sua fumaça encobriu a pequena sala e a atmosfera desta, naquele instante já extremamente tensa, ficou também fosca. O forte gosto do tabaco amargou a suavidade do vinho. Posicionei a taça na mesa de centro, abandonando a bebida. Assim como minha relação com K., a sonata de Debussy chegava ao seu fim.

Eu não tinha e não sabia se queria ter qualquer futuro com A. Sabia apenas que a amava e isso me impedia de ser o amante devoto que K. merecia ter. Optei pela honestidade para salvá-la de maiores agouros sofríveis. Foi a alternativa mais nobre a ser tomada.

No dia seguinte acordei cedo. Precisava estudar a doutrina e a jurisprudência acerca de um complexo caso de grupo econômico trabalhista. K. já havia ido embora, deixando-me à mercê da solidão. Fiquei surpreso ao ver-me feliz.

Nunca mais vi K., salvo na semana seguinte, quando ela apareceu em meu apartamento para deixar algumas camisetas que havia lhe emprestado. Foi então que senti um aperto em minha mão e saí de meu devaneio momentâneo. K. me olhava com intensidade.

"Você me ama?" insistiu ela novamente na pergunta.
Esquecendo de todos os pensamentos que haviam acabado de permear minha mente após ela ter me feito aquela pergunta na primeira vez, apenas olhei diretamente em seus fundos olhos azuis e sorri: "É claro que sim, meu amor".

E a amei. Da primeira maneira.
 

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