Mal-humorados/bem-humorados.

Por: Maria Luiza Salomão

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O que leva alguém a ter um humor ácido e sorumbático, e outro a ter um estado de espírito propenso a brincadeiras e a ser mais interativo com o ambiente e com as pessoas, é intrigante. Não é uma questão patológica.

Os dois estados de espírito passam, a depender de algumas circunstâncias. Há dias que tudo parece conspirar para nos deixar com um humor “de cão”.

Nessa semana, resolvi desviar da minha rota, para – rapidamente - pegar um quadro que tinha mandado emoldurar, pensando que gastaria poucos minutos. Em lugar de difícil estacionamento, verifiquei que alguém tomou as duas vagas oferecidas pela loja. Estacionei meio enviesada, para sair da rua, pensando que seria um “bate-pronto” rápido. Não foi. Chega uma moça, talvez da idade de minha filha, e fotografa meu carro para um “álbum daquilo que a incomoda”. Aproximei-me, dizendo no meu melhor tom de voz, que não poderia estacionar de outra forma, ao que ela me respondeu, altiva: “uma sucessão de erros”. Poderia também fotografá-la, já que ela ocupou a dona da loja com seus problemas, e assim, a senhora que estava na minha frente ficou sem atendimento (e eu também). Como entrou, saiu.

Prezo o meu bom humor. Difícil manter o humor leve. Vivemos um tempo instável para humores, mesmo para os que, como eu, se esmeram em cultivar um estado de espírito celeste, de nuvens brancas.

Gosto de sorrir, como bem sabe o meu dentista. Creio no sorriso como mágico despertar de bons humores. Cultivo a Paciência, a mãe de boas disposições, da Disponibilidade, para que o espírito livre pensante, livre sentinte, saiba escolher, decidir, pelas boas ações. Boas ações tendem a conduzir realizações interessantes e criativas: reabastecem a disponibilidade, e o estoque da Paciência. Uma cadeia de efeitos retro e pró-ativos pode iniciar bom bons humores.

Creio no cultivo, na plantação do bom humor, e na sua higiene. É preciso, disciplinadamente, como fazia o Pequeno Príncipe, arrancar os baobás, proteger a rosa do vento; limpar os vulcões, mesmo os extintos, etc..

Cuido para dormir bem. Sonhos noturnos e diurnos podem trazer maus humores. Cuido de “ler” sonhos: higiene fundamental.
Saúdo o sol, sinto a brisa raquítica (nesses dias de assombroso calor), mas, ainda assim, leve e fresca, para varrer os humores da noite, misteriosa em seus desígnios. Refaço o meu dia mentalmente, antes de abrir os olhos, mas bem acordada. Vejo as imagens do que terei de enfrentar (alguns leões) e o que posso reservar, de tempo e espaço, para prazeres inocentes, íntimos e pessoais (alguns sorrisos).

Levanto-me. Quando posso, escrevo, como faço agora, para espantar fantasmas ou conhecê-los melhor.

Agradeço ter pés que me permitem olhar o mundo de uma altura mediana, nem alta, nem baixa: há algo muito acima de mim, muito maior do que eu. Devo agradecer por não me apequenar, por não me arrastar no chão.

Recado para o meu espírito: ter respeito ao seu lugar, espaço na medida, tempo exato, no mundo que gira, bem ou mal-humorado.
 

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