Segredo de estudante, uma agonia juvenil

Por: Mirto Felipim

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Não conseguia explicar o que estava acontecendo, mas a aflição também vinha acompanhada de uma sensação de leveza e prazer possível e inatingível.

Seus sentidos juvenis aguçados ansiavam pela aula daquele que o arrebatava da letargia, semeando fagulhas de cristal encarnado em suas tripas, dando nós em seus melindres, anulando positivamente sua angústia.

Não sabia o que acontecia, mas sabia o que sentia. não havia com quem se entregar em confidências sobre esse assunto. seus colegas de classe e até mesmo do colégio eram pessoas bacanas, ele próprio um garoto popular na comunidade escolar, mas ninguém nesse nível de confidência.quando o professor adentrava a sala tudo a sua volta perdia sentido e apenas conseguia se concentrar naquela figura, sem necessariamente concentrar-se na aula.

Queria fazer algo para ser diferenciado, contudo tinha medo de ser ridículo perante seus pares e principalmente ante aquele que era o motivo de toda a sua ansiedade.

Pensou em conversar com a mãe sobre o que estava se passando mas também não viu sentido e ela não entenderia e conversaria com o pai e assim por diante tornando o assunto num caso de família. já vira situações semelhantes e ao invés de solução a coisa somente tenderia a se enrolar mais e mais.

Nos devaneios noturnos sonhava com abraços e beijos ardentes. Acordava suado e excitado, tendo de sublimar seus hormônios, para conseguir desarmar o corpo e voltar a dormir com um pouco de paz.

Levantou determinado. seria naquele dia. pediria ao professor para ter uma conversa particular.

Decidido e feito, sendo a aula a última do dia, estrategicamente esperou que todos saíssem e colocou-se frente à mesa do mestre que se preparava para sair também e pediu a fala a sós.
naturalmente o professor fixou o olhar com interesse e pediu que prosseguisse. tinha notado uma queda de rendimento no aluno e perguntou se poderia ajudar.

Não era sobre isso que queria falar, conseguiu murmurar, falando em um tom que nem mesmo ele sabia de onde tinha tirado.
o professor sentou-se e o convidou a igualmente sentar-se na carteira em frente.

Seu coração disparou, sentiu o perfume misturado ao suor do dia do mestre e seu corpo reagiu estimulando todos os sentidos. experimentou uma incontrolável vontade de se jogar nos braços do mestre, como nos sonhos perturbadores que povoavam suas noites.

Conteve-se a duras penas.

O professor o encarava impaciente, olhando o relógio, esperando.

Finalmente resolveu falar. bateram na porta, pelo visor de vidro uma mulher acenava. o professor fez sinal para esperar um pouco.

É minha mulher, veio me buscar, vamos almoçar juntos hoje. mas pode falar.

O ar sumiu, a vista escureceu e por um breve momento o mundo desabou. o professor ficou preocupado com sua palidez.
recuperou-se rapidamente, levantou-se e saiu sem olhar para trás, passando pela mulher e levando dela apenas o odor adocicado e o ódio latente da impotência.
 

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