Cá e lá

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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É uma pena que o brilho de minha alma se tenha esmaecido, que ela se tenha descaminhado em meio a ventos e chuviscos, resultando volume intumescido de erros tantos, disforme de omissões muitas. Não fosse assim, e eu construiria uma metáfora gasta, mas agradável. Diria que minha alma é um passarinho que flana indeciso, querendo pousar na copa de colinas mimosas, querendo dormir nas fraldas de saudosas serras.

A metáfora fica inviável, mas sua impossibilidade não disfarça a verdade: meu espírito alterna vontades, pende para dois pólos.Apeei do sol e da lua lá nos pés da Serra Saudade, bem pertinho de onde ela se banha no córrego – de Rio Grande apelidado. Lá na planície descansam meus avós, o pai, a mãe, em companhia do Caetano e de tantos apressados amigos. Lá, naquelas várzeas, à sombra da serra, plantei sementes puras de conflito que resultaram flores colhidas noutros sítios. Foi lá que eu ouvi o vento sussurrando notas nos ouvidos das folhas do ipê amarelinho, amarelinho.

Aqui aconteceram muitas colheitas.

Aqui, saltitando na copa e no pé de colinas múltiplas, perambulando pelas margens do córrego, pesquei bagres voadores que a imaginação repletava nos rios do céu. Aqui enchi de gravuras muitos e muitos cadernos. Poucas vezes os desenhos foram fixados com as cores do arco-íris, quase nunca mereceram admiração. Mas eu sempre me descobri no preto e no branco. A transparência pesquisei amiúde nos poços interiores, em meio às pedras e ao lodo.

Lá e cá professorei. E me encanta e me basta o vôo liberto de antigos tutelados, rasgando céus de lá, de cá e de todos os cantos.O espírito pende duvidoso para dois pólos. E reconheço a mesma dúvida que, num dia longínquo, se instalou no coração de um imitador de passarinho e ele gorjeou tristonho.

 Meu coração, quem ficará com ele quando eu morrer?

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