Vertigem

Por: Rafael Guerreiro

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A cidade se descobre novamente e o dia começa cedo ao som dos motores e da fuligem. O movimento pulsa dentro e fora dos homens, escamoteando a dolorosa sensação de suportar a rotina.

Carros e motos pairando pelos edifícios, construções imponentes, guindastes e suas cargas, telefones e computadores com seus dados transmitidos na velocidade da luz: tudo isso vai gestando uma estranha vertigem desoladora.

Os jornais trazem as manchetes do dia, tão quentes quanto o pingado na padaria. Políticos roubando, gente protestando e dinheiro faltando: verrinas despropositadas, mas não é nada que gere alarde na Província da Esperança. Já se viu coisa pior, mas ninguém se lembra. É tanta coisa ruim de uma só vez que lembrar de tudo causa câncer.

Entre um gole de café e outro, vai se purgando o sono até que o sol a pino cozinhe o que sobrou do bom senso, enquanto a massa de anônimos vai se acotovelando debaixo da sombra do andaime.

Mas não é hora de parar. Aqui, na Província da Esperança, a rotina não para, porque a dor é perene e a vertigem causa insônia.

E logo vem a tarde, que se não for de domingo, ainda tem cura, com certa adrenalina de um engarrafamento com chuva.

Mas não pode parar, porque logo é noite, horário do jornal, que vem recheado de amor e todo o sangue quanto desejam os mais sarcásticos corações humanos.

Depois é madrugada e nada parou. O suor do pesadelo insiste em gotejar no lençol molhado de solidão. Acho que é má digestão. É tanta coisa indigesta que não tem perdão.
 

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