A morte e os impostos

Por: Gabriel Careta

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Marcos era um brilhante advogado tributarista. Tamanha era sua genialidade na área de tributos, que um pequeno parecer contendo sua redação e assinatura poderia já ser considerado uma sentença de invalidade acerca da cobrança de determinado imposto, taxa ou contribuição. Seu raciocínio impecável, aliado às inúmeras amizades e alianças políticas que fizera ao longo de sua vida com juízes das mais altas cortes brasileiras, fazia com que as maiores empresas do país o buscassem com fins de cortarem custos fiscais.

Suas teses faziam milagres. No vigésimo ano de sua carreira, já ao final de sua breve vida, conquistou um ato tão memorável e improvável que todos do ramo jurídico passaram a chamá-lo de São Marcos, o que o acompanhou como motivo de chacota por parte de seus amigos tricolores.

Mas a vida de Marcos não vinha desacompanhada de opróbrios e escândalos pessoais. Tomás nasceu de um romance extraconjugal que para Marcos só não fora mais desejável do que incontrolável. A mãe de Tomás foi uma das mais belas e inteligentes estagiárias que já passaram por seu escritório. Ambos desejaram-se desde o primeiro inocente aperto de mão que trocaram na entrevista de admissão da estudante. Marcos, jovem e atlético à época, foi para a mãe de Tomás um motivo de extremo desconforto no ambiente de trabalho. Marcos era casado e a jovem possuía ambições orgulhosas de ascender profissionalmente sem a ajuda de ninguém. Para ela, uma aventura entre os dois soava impossível.

Contudo, assídua trabalhadora que era, um dia encontrou-se a sós no escritório com o cobiçado advogado. A noite passava das onze horas e Marcos lhe trouxe um café para lhe dar energias, pois precisavam terminar um intrincado relatório processual. O café, todavia, foi para eles apenas fonte de energia para se amarem. Se amaram até meados da madrugada nos confortáveis cômodos do próprio escritório. Depois da noite de incendiária e insaciável paixão, ambos concordaram que aquele não era um rumo sensato a ser tomado. Decidiram tomar rumos diferentes. Ela decidiu abandonar o escritório e foi estagiar junto ao tribunal, porta de entrada para uma promissora carreira na magistratura.Três meses depois, a estagiária lhe procurou e confessou que estava grávida e que Marcos era o pai.

Decidiram ter o filho, sob a condição de que ninguém soubesse quem era o dominus seminis que permitira sua vinda ao mundo. Apenas Marcos e a mãe sabiam quem era o pai da criança. A impensada aventura poderia custar a Marcos seu casamento e à jovem sua reputação de mulher independente que na vida tudo conseguira com o suor do próprio esforço. Marcos ajudava nos custos do filho e esteve sempre presente em sua vida, a pretexto de ser um grande e antigo amigo da mãe. Tomás, aos dezoito anos, decidiu fazer Direito e foi estagiar no escritório do pai, sem saber que com este guardava tão íntima relação de parentesco. Sua mãe à época já despontava como um grande talento dentre os magistrados nacionais. No escritório, Marcos não escondia o favoritismo pelo filho e desde cedo o tratou como um pupilo que um dia entraria para o seu quadro de sócios.O ano que entrara para os livros da hagiografia foi para Marcos também um ano de enorme desalento. Sentindo fortes dores abdominais, procurou seu irmão, um conceituado oncologista da capital, que lhe passou alguns exames. Ao final, lhe dera um prognóstico de seis meses de vida. Um carcinoma maligno do pâncreas, já metastático, havia se desenvolvido em seu organismo. Ouvindo a ecoante voz fraternal em sua mente, manteve-se impassível, controlado. Com lágrimas nos olhos, seu irmão o abraçou e disse que faria o possível para que Marcos sofresse minimamente. Calmo e consolador, Marcos apenas sussurrou em seu ouvido: "Quem foi mesmo que disse que as únicas certezas da vida são a morte e os impostos?". Seu irmão soluçou um riso acalentado.

O medo da morte assolou São Marcos como uma avalanche no momento em que colocou os pés para fora do consultório do irmão, tomando conta da breve e fria calma que sentira ao ouvir a aterradora notícia horas antes. Todavia, manteve firme sua decisão de não se submeter a tratamentos quimioterápicos, que teriam efeitos meramente paliativos e deletérios para sua saúde. Aceitou seu prognóstico de vida. Seis meses seriam o bastante para terminar sua enxuta existência de uma maneira que lhe trouxesse satisfação....

A notícia da moléstia de Marcos tomou a todos como uma tragédia desmedida de proporções, tendo surtido efeitos especialmente sobre sua esposa, que tanto o amava, sobre Tomás, que enxergava aquele velho amigo de família como um pai que nunca teve, bem como sobre a mãe do jovem jurista. Esta, vendo-se altruísta ante a situação de Marcos, disse-lhe apenas: "A decisão de contar a verdade a ele é toda sua. Não irei interferir. Faça como achar melhor". Marcos apenas disse que pensaria no assunto.

A morte, caminho que todo ser dotado com o dom da vida deve eventualmente tomar, acomete cada indivíduo racional de uma maneira diferente. Um ponto em comum que todos têm ao tangenciá-la, no entanto, talvez seja o medo da dor e o medo de causar dor em outros. Marcos não era exceção. Não contaria ao próprio filho, às vésperas de sua passagem, sua precedência biológica. Seria apenas mais um motivo de sofrimento para aquele jovem rapaz que Marcos tanto amava; apenas uma preocupação a mais para uma mente já desprovida de tempo para solucionar uma infinidade de problemas.

Certa noite, alguns meses depois, Marcos sonhou com sua mãe, que há anos já o havia deixado a trilhar sozinho os rumos da penosa existência mundana. Nunca sonhava com ela e, em seu delírio conturbado de quem não sabe se ainda está sonhando ou acordado, jurou poder ver seu espectro carinhoso e acalentador junto dele na cama segurando sua mão. Naquele momento tomou sua decisão.

No dia seguinte, em seu escritório, Marcos redigia aquela que acreditava ser sua última petição inicial. Não era um processo demasiadamente complexo e não seria direcionada a nenhum juiz de especial importância jurídica. Ao concluí-la, chamou Tomás e outros dois advogados à sua sala e pediu que estes a lessem e dessem seus pareceres. Após concordarem com todos os termos apostos, Marcos a assinou e pediu que chamassem um dos estagiários para protocolá-la no fórum. "Estão todos em horário de almoço", disseram os presentes. Marcos pediu então que saíssem e que chamassem o próximo estagiário disponível para cumprir a diligência.

Ao ver-se novamente sozinho em sua sala, Marcos abriu a petição em seu computador e acrescentou um último requerimento. Um requerimento inusitado e provavelmente nunca antes usado em nenhum processo cujo assunto eram impostos. Imprimiu o documento, o assinou e o colocou dentro de um envelope pardo junto da cópia. Um estagiário entrou em sua sala e levou a petição para o protocolo.

Marcos deixou o mundo na semana seguinte. Nesse mesmo dia, Tomás, abatido com a perda de seu mentor, recebeu um comunicado do juiz para o qual a petição havia sido dirigida. Dizia apenas "Favor esclarecer o pedido de número 20". Tomás não se lembrava de tal pedido, então pegou a cópia que tinham do documento para lê-la.

"Pedido nº 20: Dotado de pleno discernimento dos meus atos, eu, Marcos Cavalcante, venho, nos termos do artigo 1.609, inciso IV, do Código Civil, por manifestação direta e expressa perante este Juízo, reconhecer o Sr. Tomás Moreira como meu filho e herdeiro havido fora de meu casamento. É o requerimento no sentido de dar ciência ao reconhecido para que manifeste-se acerca de sua aceitação, nos termos do artigo 1.614 do mesmo diploma legal".

Desnorteado, Tomás releu aquele pequeno fragmento inúmeras vezes. Ao aceitar as palavras que ali estavam postas, procurou sua mãe e lhe mostrou o pedido final de seu pai. Ela confirmou o que estava escrito e lhe contou toda a história.

Mais estarrecedor que nunca ter conhecido o próprio genitor talvez seja o fato de o ter conhecido a vida inteira sem nunca o saber. Tomás sentiu que, de certo modo, sempre soubera. E então, acometido por muita emoção, o jovem chorou. Chorou todos os choros que um pai enxuga durante a incipiente infância de um filho.

Benjamin Franklin uma vez disse que nada era certo além da morte e dos impostos. Tomás, no entanto, assim como o pai, passou a dedicar seu ofício a tornar apenas a morte um destino inafastável.

Com o talento paterno vivo e correndo em suas veias, os clientes de Tomás passaram a ver nos impostos algo tão incerto e efêmero quanto a própria vida.

Afinal de contas, nem a morte é capaz de apagar o brilho de uma vida memorável.
 

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