Bem-vinda

Por: Eny Miranda

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Ouço dizer que é primavera. A menininha rega o pequeno vaso de flores. São rosinhas miúdas, brancas miniaturas das conhecidas rosas de jardim. Ambas, menina e roseirinha, parecem ungidas de orvalho; ambas, saídas do sereno e dos cuidados de uma noite amena: as pétalas acetinadas, despertando para a vida; as folhinhas frescas, viçosas; a beleza, o aroma... e a suavidade dos gestos, o ouro fino e luzente dos cabelos, o líquido cristal dos olhos, a pele delicada (“é porcelana”, costuma dizer o meu bom amigo Pacheco)... Nelas, tudo contrasta com o seco e o áspero que as circundam: chão esturricado; céu sem nuvens e opaco, barrado de fumaça e pó vermelho; ar pesado, acre, irrespirável; folhas tristes - murchos pingentes castanhos aguardando os dedos do vento derradeiro, que os colherá e conduzirá de volta ao solo. E o calor. O calor impiedoso, forno aceso no chão, nas paredes, nos campos, nos cantos, nos corpos...

Em meio ao Saara desta estação estranha, aquele pequeno oásis me acalenta, me atenua o desconforto físico, o cansaço espiritual. Parece mesmo que, nas florinhas, as minúsculas pétalas se fazem mais sedosas e mais brancas, as folhas enverdecem e os caules se reerguem em louvor à menininha, ao seu terno, compassivo amor. É a esperança que ela rega, alimenta, com o olhar orvalhado das primaveras boreais, e o regadorzinho mágico das fadas bondosas, nas mãozinhas leves, diligentes, acariciando a triste e calcinada mão dos desertos, estendida sobre o tempo.

Do mais fundo de mim, brotam raminhos de confiante expectativa. Vejo translúcidas nascentes, campos úmidos e perfumados de chuva, nenúfares boiando em verdes lagos limosos ou em fluidos e polidos azuis; vejo borboletas entre folhagens que se debruçam sobre arroios cantantes... Sinto chegar, dos confins do chão, um cheiro úmido de terra-mãe, odor de ventre fertilizado, perfume de vida. E do mais remoto dos ares, do íntimo de grutas calcárias, os ecos líquidos de estalactites e estalagmites se formando, gota a gota... ou - quem sabe - do útero de grossas nuvens, os sons da chuva se aproximando.

Tudo é concreto e solúvel. Tudo é verdade e espera.
Então, acontece.

O vento abre as porteiras do pó, remove a seca epiderme do chão, esfolia a crosta endurecida de plantas e solos, arrepia a pele de gentes, e, do céu, desce a água bendita, bem-aventurada, retirando as algemas do verde, alforriando a vida.

Bem-vinda chuva! Bem-vinda terra molhada, fecundada, parida. Bem-vindos jardins abertos em pétalas e pássaros e cantos e encantos. Bem-vindo ar, limpo, leve e doce.

A menininha ergue o rosto, abre a boca, os braços e as mãos; corre entre os canteiros sedentos, ela mesma uma pequenina rosa. Mil regadorezinhos mágicos transbordam viços e frescores.

E a primavera se faz, verdadeiramente.
 

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