A Dama Dourada

Por: Sônia Machiavelli

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Por puro preconceito, algo que nos apequena a existência e passa muitas vezes despercebido em seu poder de cegar, quase perdi um grande filme disponibilizado pela NETFLIX, minha mais recente mania. O título me remeteu para alguma coisa muito kitsch, e eu nem sei exatamente por quê. Ainda bem que bati os olhos nos nomes dos atores, antes de buscar outro, e resolvi assistir. Ganhei muito em história, informação, estética e mobilização de sentimentos.

Lançado em meados de agosto deste ano, A Dama Dourada é uma adaptação para o cinema do livro de Anne-Marie O’Connor- A dama dourada: a extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer. O filme do diretor Simon Curtis segue a narrativa da jornalista de origem escocesa, embora na transposição ele tenha usado em alguns momentos de certas licenças poéticas. Continua inegável que muitas vezes uma imagem fala mais que mil palavras e, no caso, o fato de ser um quadro o motivo do enredo explica a pertinência do provérbio oriental.

Livro e filme, baseados em fato real, mostram a jornada de coragem, obstinação e sofrimento de uma mulher que resolve, já no final de sua existência, reivindicar herança que pertencia à sua família judia e fora usurpada pelos nazistas assim que eles anexaram a Áustria. A herança, quatro telas do pintor Gustav Klimt, tinha entre elas a citada no parágrafo anterior, considerada a segunda mais cara do mundo. 135 milhões de dólares foi o que pagou o milionário Ronald Lauder em 2006 à sobrinha de Adele, Maria Altman, que travou longa e custosa batalha judicial para recuperar os bens confiscados. Ela contou com o trabalho, a adesão e o apoio incondicional de seu advogado, o jovem Randy Schoemberg, cujo envolvimento com a causa da cliente superou sua inexperiência e foi decisivo para a vitória. Maria, judia naturalizada norte-americana desde que fugiu dos nazistas em 1942, conseguiu fazer com que o quadro ficasse exposto na Neue Galerie, em Nova York, onde se encontra até hoje.

Lauder, embaixador dos Estados Unidos na Áustria, membro da comissão designada por Bill Clinton para examinar casos de roubo nazi de joias e obras de arte pertencentes a judeus, ao recuperar O retrato de Adele Bloch-Bauer expressou-se de forma expressiva: “Esta pintura é a nossa Mona Lisa”. E é mesmo maravilhosa e hipnotizante a tela quadrada de 138 cm de lado que custou ao pintor três anos de trabalho para fixar com óleo, ouro e prata a imagem da modelo, filha de banqueiros e mulher de rico produtor de açúcar. O título original Woman in Gold, mais amplo e metafórico, seria suplantado junto ao grande público pelo denotativo, que foi o que vingou: O Retrato de Adele.
A obra foi encomendada pelo marido da aristocrata, Ferdinand Bloch-Bauer, apoiador das artes e admirador da obra de Klimt. Confessadamente inspirado nos mosaicos bizantinos (século VI), da Basílica São Vital, em Ravena, e particularmente naquele que representa a imperatriz Teodora, com halo dourado e joias, o pintor criou um monumento à beleza feminina. A abundante utilização do ouro, que instaura uma atmosfera etérea, e a delicadeza dos detalhes do rosto de Adèle, que impera sobre a sugestão de nuvem e nela se integra, são distinções que sacramentam o Art Nouveau vienense e o apartam de outras manifestações na Europa.

No entanto, como santo de casa não faz milagre, o festejado Klint da Exposição Internacional de Paris, em 1905, neste mesmo período é malvisto em Viena por romper com cânones e mostrar-se artista provocador. Avançado para sua época, dissidente da Sociedade dos Artistas Vienenses, fundador do Grupo Secessão e da revista Ver Sacrum, desenvolve uma pintura autoral que é ornamental, linear e muito feminina. A série de retratos de mulheres, entre os quais o de Emilie Floger, modelo com quem teve um envolvimento erótico, precede seus últimos anos, quando se dedica a paisagens e cenas alegóricas. Para muitos críticos, e mesmo leigos admiradores, O Beijo, pintado entre 1907 e 1908, é sua obra-prima.

Construído em dois planos, o do presente que evolui entre tribunais e processos, e o do passado que resgata os horrores vividos pelos judeus perseguidos, o filme A Dama Dourada retrata o encanto da Paris e da Viena dos anos 20 e o horror da ascensão nazista que teria no holocausto sua face mais pérfida, nefasta, medonha. Chama a atenção o funcionamento contemporâneo da Justiça em países democráticos, onde uma cidadã anônima consegue, com sua força interior, desejo de reparação e amparo da legislação, mobilizar tribunais internacionais, lutar incansavelmente, e mesmo depois de algumas batalhas perdidas chegar à vitória final.

Não fossem as qualidades já elencadas, valeria assistir ao filme pela interpretação magnífica desta atriz inglesa cujo talento inquestionável já lhe garantiu muitos prêmios- Hellen Mirren. Ela faz da eloquente Maria Altman a personagem inspiradora para todos os que em algum momento são vitimados por atos de injustiça – grandes ou pequenos. Em trânsito para os tribunais ou em momentos de reflexão onde busca ânimo, a protagonista parece nos dizer a cada cena que calar sobre o mal é consenti-lo, o que, para ela, soa indigno. Um exemplo de conduta , bravura e perseverança.
 

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