A mais nova descoberta

Por: Eny Miranda

302062

“Nascer: findou o sono das entranhas./ Surge o concreto,/ a dor de formas repartidas./ Tão doce era viver/ sem alma, no regaço/ do cofre maternal, sombrio e cálido./ Agora,/ na revelação frontal do dia,/ a consciência do limite,/ o nervo exposto dos problemas.// Sondamos, inquirimos/ sem resposta:/ Nada se ajusta, deste lado,/ à placidez do outro?/ É tudo guerra, dúvida/ no exílio?/O incerto e suas lajes/ criptográficas?/ Viver é torturar-se, consumir-se/ à míngua de qualquer razão de vida?// Eis que um segundo nascimento,/ não adivinhado, sem anúncio,/ resgata o sofrimento do primeiro,/ e o tempo se redoura./ Amor, este o seu nome./ Amor, a descoberta/ de sentido no absurdo de existir./ O real veste nova realidade,/ a linguagem encontra seu motivo/ até mesmo nos lances de silêncio.// A explicação rompe as nuvens,/ das águas, das mais vagas circunstâncias:/ Não sou eu, sou o Outro/ que em mim procurava seu destino./ Em outro alguém estou nascendo./ A minha festa,/ o meu nascer poreja a cada instante/ em cada gesto meu que se reduz/ a ser retrato,/ espelho,/ semelhança/ de gesto alheio aberto em rosa.”
Nascer de novo - Carlos Drummond de Andrade


Morrer: findou a vigília do concreto.
Surge o abstrato,
a paz da unidade anímica.
Nasce o eu etéreo,
resultante dos encontros
e desencontros terrenos.
Vai-se a dor da alma encarcerada
e exposta à impiedosa luz do dia.
Abre-se o cofre irrestrito do eterno,
revela-se a consciência do infinito,
desfaz-se o nervo exposto dos problemas.

Claras respostas,
verdades panorâmicas.
Vão-se as guerras
e as dúvidas do terreno exílio.
Dissolve-se a palpitante
e atribulada capa de matéria.
Substancializa-se o vazio.
Descobre-se o motivo,
desvenda-se o incógnito,
revela-se a razão da eternidade.

Eis um terceiro nascimento,
anunciado e não adivinhado.
O ‘irreal’ veste-se de realidade,
o silêncio encontra a sua Verbal linguagem.

A explicação transcende da vida a nebulosidade:
Sou o Eu Final.
Da partição ao encontro,
da fusão, o resultado.
Na eternidade estou nascendo,
retrato de mim mesmo
em circunstância de soma.

O amor, mais uma vez,
resgata o sofrimento da passagem.
Rompendo os limites da velha vida,
anuncia uma nova descoberta
de sentido no absurdo de existir.

Eny Miranda
 

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