Indiferença

Por: Maria Luiza Salomão

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Passeando no Parque Ibirapuera, um dia, vi um cachorrinho igualzinho ao meu, que, na época, era um Fox paulistinha. Mas, que passou por mim indiferente, com olhar canino de quem não me era íntimo. O “meu” Fox me faria festa tamanha!

O meu cachorrinho atual, o poodle Nenê, não é indiferente a ninguém, seja cachorro (de qualquer raça) ou gentes (de qualquer raça). Ele fica agitado, quer interagir. Com gentes - geme, pula, cheira, aninha no colo quando a pessoa gosta de cachorro. Com cachorros - de qualquer tamanho, late, parece bravo, mas o rabinho denuncia a alegria, e aquieta-se logo, cheira e rodeia, interminavelmente, o companheiro (a). É tresloucada a festança que faz aos cachorrões enormes, que não lhe dão a menor atenção, e me faz temer pela sua pequena vida.

Meus sorrisos são latidos para os transeuntes, conhecidos e desconhecidos, que passam por mim. Poucos os que voltam a olhar. Tenho prazer em olhar as pessoas: o andar, o olhar, o sorrir, os pequenos gestos, o jeito como eles se vestem, o tipo de sorriso, a sonoridade da gargalhada, o balanço do corpo, a rigidez (ou não) dos ombros. Nada me é indiferente, quando tenho tempo para devanear.

O jeito de abraçar alguém, o jeito de sentar - se larga o corpo, ou economiza movimentos, se é contido, rígido, defendido. Como come, bebe, se excede a si mesmo, se conta-gotas, frugal, na sede e na fome.

Muitos pedestres não se desviam, hoje, quando estão em direção contrária àquela em que marcho nas calçadas, ou nos espaços públicos, como carros em um “racha” adolescente. Se não desvio, tenho a impressão que trombo. Sempre foi assim? Parece que havia (em outros tempos) uma sondagem corporal: a pessoa titubeava à direita, à esquerda, e um jogo de corpo fazia do desvio um balé rápido; algum sorriso era permitido se houvesse confusão... (hoje os celulares são o grande fascínio...).

Esqueço nomes, dificilmente esqueço fisionomias. Deve ser por essa minha curiosa, atenta, persistente observação. À procura de identificar a origem, a história implicada naquele ser-outro que desconheço, ou conheço sempre infinitamente pouco.

Triste receber olhar indiferente quando a minha percepção tem registrada a significância da pessoa...quando senti, outrora, um dia que se perde em noites escuras trás-os-montes, minha história mesclada à dela.

Mas acontece e, quando assim é, a solidão se faz torre alta, com poços intransponíveis como nos castelos medievais, pontes levadiças travadas impedindo a passagem, a entrada, a qualificar como estrangeiro o que um dia foi próximo, íntimo, hospedeiro e hóspede.
 

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