Cachoeiras e boiada

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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De primeiro era muito fácil.

O pai estava na lavoura, a mãe tinha um mundo de obrigação, filhos de colo, cometia distração. Pensava que eu estava entretido, construindo curral com os palitos de fósforo já usados. Pensava que eu brigava com os espinhos, colhendo juás. Pensava que eu estava fincando pauzinhos nas frutinhas para que elas se encantassem no boi Estrelo, na vaca Urubua, na vaca Tigrona e seus bezerrinhos. Pensava que eu estava enchendo meu curral com minhas boiadas verdes. Pensava que eu galopava pelo quintal, montado no cabo de vassoura. A mulher não ouvia barulho, pensava que eu estava lá perto da bica, inventando olaria, fazendo tijolos e telhas para a morada da boneca da Nininha, a irmã mais velha.

A mãe só pensava mansidão. Como o remorso ainda não viera para o mundo, então eu escapulia.

Nem precisava do apoio do corrimão, porque a pressa aumentava a largura da pinguela. Correndo sobre o eucalipto lavrado que o pai estendera, atingia o outro lado do córrego, sumia na matinha lá longe e, esquecido do medo das cobras, chegava à beira do barranco.

Agarrando-me a arbustos, a moitas de capim gordura, a raízes de árvores raquíticas, descobrindo pedras e escadas, ia escorregando paredão abaixo, chegava ao remanso onde o Córrego das Pedras afundava, depois de despencar lá do alto da serra, berrando feito o boi Luano.

A volta exigia algum sacrifício, apesar de o capim amassado assinalar a estrada. É que a colheita de seixos era sempre rica, as algibeiras das calças curtas vinham entupidas, atrapalhavam os movimentos, encumpridavam o caminho, como se o corpo esquelético houvera recebido desavisadas gorduras.
Perigo não havia: a jornada do Anjo da Guarda, naquele tempo verde, era de vinte e quatro horas.

Hoje, o pai, a mãe se foram para outros sítios.
As irmãs abandonaram as bonecas de milho e também se foram. Cresceram, contentam-se com brinquedos da cidade.
Eu resto no meio da vereda.

Quero novamente me banhar na cachoeira, teimo, insisto em desejos temporões.

A vigilância da mãe desapareceu. Do pai o castigo que nunca existiu desapareceu também.

Surgiram vigilâncias e temores outros: desconhecidos habitam o casebre natal, cachorros grandes vigiam o terreiro e as cercanias, donde sumiram minhas boiadas de juás e meu cavalo-de-pau.

Medo e vergonha me impedem de atravessar a matinha rala, esgueirar-me por entre pedras, redescobrir caminhos.
Desejos se avassalam ante obstáculos, ante dúvidas.
— Vai que o Anjo da Guarda também se tenha aposentado.
 

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