Eternize

Por: Isabel Fogaça

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A morte bateu em minha porta num sábado fosco, há sete anos. Lembro-me do seu cheiro, do seu gosto e da exata sensação de desmoronamento que ela me provocou quando levou uma das pessoas mais queridas que eu tive na vida. Mas, afinal, o que a morte é? Um tapete que esconde histórias para todo sempre? Não, se não desistirmos de mantê-las vivas.

Minha tia Mônica sofreu de uma doença terrível: o câncer. Enquanto buscava a cura, ela nunca deixou de demonstrar felicidade e amor pelas coisas do mundo: foi valente, incisiva, persistente. E amo contar sua história, por mais triste que tenha sido, pois é nisso que encontro vitalidade para continuar a minha caminhada.

Certa vez li um texto de Nelson Rodrigues, onde ele dizia que somos todos leprosos, no sentido de que somos seres de falta, e buscamos constantemente, objetos - materiais ou não - para suprir os nossos vazios. A morte, entretanto, é o maior vazio de todos: é o agente responsável por tentar colocar pano preto, pedras de concreto e bolas de neve, em coisas lindas que foram vividas.

Quantos tangos minha tia gostou de dançar, quantos amores tocaram seu coração, quantos animais de estimação ela adorou, quantas foram suas músicas favoritas, ou frases de poetas que fizeram com que ela espalhasse um pouco de amor por esse mundo?! Muitas dessas coisas eu não sei, mas sei que a intensidade existiu, e não quero apagar nada de sua história. Por isso, em seu nome, e buscando doar felicidade àqueles que lutam pela vida, hoje doei vinte centímetros do meu cabelo.

Por você, e por quem você ama: eternize.
 

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