Triste lembrança

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Quando jovem, da mureta do alpendre de minha residência onde costumava ficar muitas horas, observando as pessoas na rua, presenciei uma cena impactante e triste de que nunca mais me esqueci. Era domingo, de tardezinha, quando vi duas irmãs saindo de suas casas, bem vistosas, com roupas boas, sapatos de salto alto, lábios coloridos de batom, intencionadas de irem ao cinema, sessão das 18 horas, no cine São Luís. Andaram até quase o fim do quarteirão, quando voltaram, abruptamente, em direção à casa. Pouco antes de chegar, ainda na calçada, uma delas desfaleceu e caiu, já sem vida. Gritos, desespero, parentes, médico, tudo em vão. A moça se fora em plena euforia da juventude.

Soube, depois, que ela sentira a saia apertando, uma dor forte na frente do corpo e pedira para voltar. Morrera do Mal de Chagas, causada pela picada de um inseto, conhecido popularmente como barbeiro, que após muitos anos compromete os músculos do coração, causando, também, anormalidades do ritmo cardíaco que podem resultar em morte súbita. Em criança, morara na zona rural, em casa de pau a pique, onde os insetos costumam se alojar, pois estas casas eram feitas de bambu entrelaçados e unidos com barro, de frágil consistência, podendo formar fendas e vãos nas paredes.

Atualmente, há maior prevenção à doença, com o combate aos insetos, nos locais de risco, com dedetização. Os mais jovens não devem conhecer bem este nosso inimigo, mas até hoje não gosto muito de lugares distantes, sem progresso, porque o susto foi grande e relembro este fato com nitidez.
      

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