O nome

Por: Maria Luiza Salomão

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Em uma livraria, de repente, levei a mão em direção ao mesmo livro que outra mão feminina. Recolhemos as duas mãos em movimento sincronizado, coreografado, e rimos as duas, encontrando nossos rostos dantes invisíveis. Flash de interesse imediato que brota – simultâneo e responsivo - entre as pessoas. Às vezes, um livro é mais do que um livro, é quase uma carteirinha de agremiação.

Fomos as duas, atraídas pelo mesmo título, as visitas que hoje estamos, de autor que fiquei conhecendo através da Revista Cult. O autor, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, mora em uma pequena cidade, dá aulas de português e tem uma loja, onde trabalha junto com a mulher. Estávamos na Livraria Cultura, em São Paulo.

No gesto automático de gentileza mútua, abrindo espaço para a mão curiosa da outra, foi que encontrei a dona de uma face de senhora provecta, com um par de faróis azuis brilhantes, angelicais. Ela se dirige a mim: Li que esse romance se remete ao mundo caipira, que anda desaparecendo; fala com natural intimidade, como se eu a conhecesse. Sim, respondo encantada, que bom alguém escrever sobre nosso mundo caipira, antes que ele desapareça por completo, não é?

Aproxima-se outra senhora, de cabelos grisalhos, vestida como uma freira, saia preta e blusa bege, que oferece o braço aos lindos olhos azuis, de cabeleira branco-prateada, ondeada em gentil penteado. Rindo, minha elegante interlocutora apóia-se na senhora que se aproximou, e me apresenta – minha babá. Eu acho graça...

Fizemos, instantaneamente, essa agremiação invisível. Intuí que essa velha senhora é apaixonada pela leitura, feito eu. Pensei que não a veria mais, mas ela se virou e me disse: gostaria de tomar um chá comigo? Automaticamente disse sim.

Quando alguém aparece do nada, parecendo tão familiar, é melhor a gente não deixar escapar. Algo no seu olhar me convenceu. Afinal, não estávamos em uma cidadezinha do interior, podendo topar em qualquer esquina.

Mas ela e a “babá” se foram... Distraída, em estado de alma leve e íntimo, eu a vi no caixa, com seu livro, esguia, vestido azul celeste, rendas no decote, lenta, mas firme, apoiada no braço da sua acompanhante. Não olhou para trás. Poderia tê-las alcançado, a mulher sem nome e sua babá.

Melhor guardar a promessa de amizade. Gostei de me sentir um tanto caipira, naquele momento de “papo de comadres”. Eu me vi, um dia, será?, a bater palmas à porta de sua casa: “ó de casa!”.

Estranho encontro para título de livro tão afim... as visitas que hoje estamos.

De quanta intimidade precisamos para não sentirmos que somos “visitas”?

Se eu tivesse, de fato, o endereço, nós duas estaríamos amigas hoje? (foi sonho ela me ter dado esse endereço, desejo, ou onde será que coloquei essa anotação?)

Mistérios bons do viver para recordar, ou guardar no coração o vivido, para viver...

 

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