Carta de despedida

Por: Isabel Fogaça

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Certa vez, li que as duas coisas mais difíceis da vida são os inícios e os fins. Remeto-me então ao meu primeiro dia de aula na faculdade, onde eu, uma ratinha que acabara de sair do ginásio, me deparei com alunos que sabiam falar alemão e haviam lido e compreendido na essência filósofos como Hegel, Marx e Nietzsche. E eu era uma pessoa que não estava preparada nem mesmo para escrever Nietzsche sem consultar uma cola. Remeto-me, também, à primeira vez que tive que trabalhar como garçonete e não sabia equilibrar uma bandeja.

Logo na entrevista de emprego, o gerente do estabelecimento me perguntou: “Você nunca trabalhou como garçonete, mas sabe equilibrar uma bandeja, certo?!” Engoli minha dificuldade em mentir, e respondi confiante: “Claro que sim!” porque no fundo, por mais que eu soubesse que seria difícil, eu nunca recusei a possibilidade de aprender.

Nestas duas passagens eu disse muito sobre a minha vida nos últimos quatro anos. Abandonei tudo que havia construído para um novo início: esforçar-me como preciso para poder continuar numa universidade pública. Aprendi a trabalhar como garçonete para ter meu diploma em mãos, e o tive. E hoje, no deleite desta sensação, remeto-me ao início de tudo isso.

Em meados de 2011, Tadeu me estendeu a mão, possibilitando que eu trabalhasse em seu restaurante. E foi de longe o aperto de mão mais firme que recebi. Em nossa entrevista, eu não levei currículo algum, eu dei a ele a minha palavra e ele me deu a dele. Tadeu é um tipo único, destes que a gente encontra só uma vez na vida.

Em meio a tanta tecnologia, ele dispensa computadores e opta por calculadoras; ele acredita que a hora do almoço é sagrada e, por isso, não atrapalha a refeição de seus funcionários mesmo que o restaurante esteja pegando fogo. E, talvez, uma de suas maiores características: ele confia na palavra das pessoas: “Se você me disser que não vai me deixar na mão, eu vou confiar na sua palavra”.

A nossa essência costuma conhecer as pessoas pelo brilho dos olhos, e além de confiar em mim, Tadeu me ofereceu um pouco de sua história, quando a minha parecia difícil demais. Certa vez, ele me contou que quando jovem, possuía poucas possibilidades de frequentar grandes restaurantes, e quando isso acontecia, ele vestia suas filhas com saias floridas, e com a maior felicidade do mundo, sua família desfrutava daquela sensação como se não houvesse outro momento após aquele. E agora, quando vê pessoas visitando o seu espaço, ele sente a mesma alegria.

Hoje pedi demissão do restaurante do Tadeu, mesmo depois de quase um ano de formada. Trabalhei lá, acima de qualquer coisa, por amor. Porém, agora preciso viver um novo início: me dedicar à minha carreira, e tentar crescer na minha área. Levo dentro do peito cada felicidade e cada desafio que o restaurante me proporcionou, e confesso que, hoje, o fim está sendo muito mais difícil que o começo. Obrigada, Tadeu.
 

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