Felicidade obsoleta

Por: Angela Gasparetto

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Ali na janela, olhando a vida passar, sinto novamente os “flashbacks” que hoje me assolam. São como imagens refletidas em uma tela, mas imagens de sentimentos. E eu sinto vários, como:-

Alegria de quando terminava o expediente e parada olhava pelas janelas do escritório. Lá fora, o sol estava a pino. O almoço me esperava, mas muito mais que o almoço, a sensação boa de chegar em casa, de ter encerrado o dia, de ter fechado aquele ciclo e de começar um novo, mais calmo e mais conhecido.

Alegria de caminhar pelo corredor de pedra da casa antiga, divisar a varanda ao fundo, com a grande mesa de madeira ao centro. Sentar à mesa com minha mãe e conversar sobre todas as novidades da família e da vida. Tomar o seu café, comer a sua salada preparada com muito carinho, sentir o cheiro da casa que emanava energia, limpeza e vida.

Há também aquela alegria de véspera de final de ano, as lojas se enfeitando, as praças se iluminando e aquela esperança boa no ar de que tudo seria fácil, que tudo daria certo.

Alegria de férias chegando, de animação para o Natal, da organização das festas e do amigo oculto...

Conforto de tardes quietas, de casa arrumada, de silêncio permitido. De sentar à janela e admirar a quietude do quintal, o cachorro espreguiçando ao sol, as roupas balançando no varal.

Sensação boa de proteção, de universo completo, de vida concreta.

Lampejos, closes, sensações parecidas, antigas que vêm, que vão, que nos pegam de repente descendo a escada do escritório, girando as chaves de casa, batendo a porta do carro, dando um beijo matutino ou descendo o elevador de mãos dadas com uma criança. Elas nos lançam no redemoinho de tempo já vivido, de uma transbordante felicidade.

Mas que muitas vezes é felicidade obsoleta, porque tudo se transformou e o momento perfeito não voltará jamais.
 

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