O cantor e o seresteiro

Por: Caio Porfirio

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Chegasse vivo em três de outubro deste ano, Orlando Silva, cognominado “Cantor das Multidões”, alcançaria os cem anos de existência. Faleceu, porém, a sete de agosto de 1978, aos sessenta e três anos incompletos. Nenhum intérprete da nossa música popular superou-o em beleza de voz. De interpretação maravilhosa. Carioca, de família modesta, conquistou os corações do País inteiro.

Minhas irmãs aprendiam as letras de suas gravações através do rádio e folhetos. E eu também as decorava.

Por essa época, inícios da década de 1940, aos doze anos de idade, na Fortaleza do meu tempo, tive uma paixão recolhida por uma mocinha que residia uns três quarteirões da Praça São Sebastião, praticamente despovoada, com velhas árvores espalhadas no areão, onde eu residia. Estava eu entrando na puberdade e nunca namorara mas quando eu a via, palpitava.

Um dia, tive uma idéia genial: fazer para ela uma serenata. Reuni alguns amigos das “peladas” de futebol, dentre eles um que conseguia, mal e mal, arranhar um violão. E eu cantaria, claro, uma música interpretada por Orlando Silva.

Fomos lá uma noite, pelas onze horas, tudo deserto e silencioso.
Dei o sinal, o amigo dedilhou o violão de qualquer jeito, e soltei a voz:

“ Ó jardineira,
por que estás tão triste?
Mas o que foi
que te aconteceu?
Foi a Camélia
que caiu do galho,
deu dois suspiros
e depois morreu...”

A voz aguda do pai da minha Diva mandou-nos para o inferno. Luzes de algumas casas se acenderam. Corremos e fomos parar muito além. Os amigos me cercaram e soltaram-me a bronca. Um deles, (já falecido) Kerginal Rodrigues, exclamou, com aprovação geral:

- Caio, você está doido? Cantar uma música, de carnaval passado, numa serenata? Tinha que cantar uma música de seresta, uma canção, uma valsa...

Não concordei. Justifiquei:

- O Orlando Silva, Cantor das Multidões, estourou com essa marcha e todo o mundo canta.

A discussão continuou e o conjunto seresteiro se desfez.

O Orlando Silva imortalizou-se na história da música popular brasileira e eu não consegui a possível primeira namorada.
E o seresteiro morreu para sempre.

 

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