Flamejantes

Por: Eny Miranda

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Elas já estão acendendo suas chamas e iluminando as ruas da cidade.

Nestes tempos que antecedem o fim do ano, os flamboyants começam a exibir seus amarelos, aboborados e vermelhos, como o sol dos maios poentes desfila seus tons fogosos, do ouro ao rubro, passando por mil alaranjados. É hora de sair às ruas, apagar os pensamentos e acender os sentidos; acima de todos, o da visão, porque, como disse Caeiro, “pensar é estar doente dos olhos”, principalmente nesses momentos.

Pois saí: pensamentos desligados e olhos bem abertos, a registrarem essas árvores incendiadas, esses vermelhos de beira de horizonte em dia de muita luz.

Não houve jeito. Que Caeiro me perdoe, mas, como observou Machado de Assis, “há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam”. Assim, vendo os flamboyants florindo, pensamentos longínquos me acorreram e não me deixaram mais. Recordações da adolescência, de quando íamos a Paquetá, bairro insular da cidade do Rio de Janeiro. Seguíamos de barca. Saíamos da Praça XV de Novembro, de manhã, e voltávamos à tardinha. Lá, a ocupação era passear de charrete e bicicleta, ou simplesmente caminhar, entre um mergulho e outro nas águas tranquilas de suas muitas praias, como a da Moreninha, a Moema, a Iracema... (nomes que também nos remetem a pensares e dizeres, estes, literários). Dizem que Joaquim Manuel de Macedo escreveu o romance A Moreninha inspirado em fatos vividos naquela ilha, o que não é de espantar.

A ilha de Paquetá, um dos poucos sítios da Baía de Guanabara que conservam suas características tradicionais, é um espaço de atmosfera bucólica, pacata, colorida, romântica. Parece distar mais de século da cidade do Rio de Janeiro. Lá não entram veículos automotores, e as pessoas, em seu andar desapressado, parecem estar desligadas de cronologias e cronometrias; desligadas de pêndulos, ponteiros e marcadores digitais. Lá, o tempo corre solto entre os séculos, as águas, as árvores, as pedras... entre o solar de Dom João, a casa de José Bonifácio e a atual Casa da Cultura. E entre os bastos flamboyants, que, nos verões, brincam de pôr do sol, a cada lado das ruas.

Ah, os flamboyants! Voltemos a eles. São árvores especiais. Seu nome, francês, significa “chamejante”, e é derivado de flamma, palavra latina que nos trouxe “chama, labareda” - símbolo de purificação, de iluminação e de amor espirituais. Imagem da transcendência. Flamboyants são verdes “flamejantes”, árvores incendiadas, coisa de seres arrebatados pela esperança e pelo amor, e que, em breve, serão consumidos entre luz e cor, como o ano e o sol.

Franca está incendiando seus flamboyants. Melhor dizendo: os flamboyants de Franca estão incendiando suas copas e iluminando a cidade.

É hora de apagar os pensamentos, abrir bem os olhos e sair às ruas.
 

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