O Bataclan

Por: Sônia Machiavelli

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Quando a Al Qaeda mirou as Torres Gêmeas e o Pentágono no 11 de setembro de 2001, dando início a uma nova era na face do planeta, sabia que atirava no coração de Nova York e de Washington. Os edifícios conhecidos em todo o mundo eram icônicos na vida norte-americana.

Quando o Estado Islâmico assestou suas armas para restaurantes, estádio de futebol e certa casa de espetáculos na sexta-feira, 13, já sabia que a destruição atingiria o âmago dos franceses. Poucos lugares são tão emblemáticos da joie de vivre dos parisienses como o Bataclan, onde foram assassinados 84 jovens que assistiam a um show de rock.

Concebido em madeira, tijolos, cerâmica, azulejos e pedras ornamentais,o prédio foi inaugurado em 1865. Sua arquitetura particularmente original reproduz um pagode chinês e, monumento mítico, tornou-se também oficialmente histórico em 1995. A construção criativa e descolada de modelos tradicionais responde bem ao seu nome. Bataclan, no original Ba-Ta-Clan, é título de opereta de temática oriental composta por Jacques Offenbach, músico de origem alemã que amou profundamente a França. Paladino do teatro musical moderno, considerado pela crítica “o Liszt do violoncelo”, viveu num período extraordinário para a cidade, que tem início no processo de reurbanização da Paris administrada pelo Barão Haussmann, criador dos famosos boulevards.

Nesta época, meados do século 19, os espetáculos teatrais começavam a explorar o espírito, a inteligência e o humor característicos da vida parisiense. Um dos artistas a seguir as demandas do momento foi exatamente Offenbach, que estreou em 1855 a primeira da centena de óperas que produziu. O enredo de Ba-Ta-Clan é centrado em dois franceses expatriados que chegam a um distante reino de língua chinesa, chamado “Che-i-noor”, e ali ficam sabendo que há um complô armado para sequestrar o rei. Depois de muitas dificuldades de comunicação, alguma dança e canto revolucionário, tudo acaba bem, com a vitória da tolerância sobre as diferenças.

A peça de ato único, que inaugurava um gênero, fez enorme sucesso, e o título se tornou tão popular que foi dicionarizado na significação de “trastes inúteis”, um dos elementos da narrativa. Dez anos depois, ao buscar um nome para a casa de espetáculos, o empresário André-Martin Paris não teve dúvidas e batizou-a como Bataclan. Seu estilo chinês tinha tudo a ver com a opereta de Offenbach. Ou teria sido a opereta de Offenbach a inspiradora do projeto arquitetônico? Esta é uma pergunta para a qual talvez não haja respostas, apenas especulações.

De certo, o que se sabe é que a casa passou por marés boas e más, tendo acolhido artistas renomados como Maurice Chevalier, mas também feridos de guerra, quando se tornou um tipo de enfermaria por ocasião de conflitos bélicos. Foi teatro e depois cinema. Enfrentou a tragédia de um incêndio; se reergueu e se ajustou a medidas de segurança exigidas por lei. (Por essa época, inspirou a criação de uma casa homônima na brasileira Ilheus. O Bataclan baiano teve seu auge entre 1926 e 1938 e levou o romancista Jorge Amado a replicá-lo em algumas de suas histórias). Nos anos 60, passou novamente a ser sala de espetáculos. Em 2005 sua fachada foi resgatada nas cores originais. Atualmente é conhecido por um programa eclético de eventos que incluem de show de rock a comédia stand-up. Com seus 1500 lugares, é a terceira maior sala do gênero em Paris, só perdendo para o Olympia (1900) e o Zénith (5830).

Estava lotado na noite de 13 deste novembro, quando ali se apresentava a banda californiana Eagles of Death Metal. Quatro jihadistas entraram atirando e mataram em 36 minutos 84 pessoas, a maioria jovens. O ataque fez parte de uma série de outros simultâneos, de que resultaram, no total, 140 mortos e cerca de 300 feridos.

O Bataclan é um símbolo. Quando falam dele, franceses o reverenciam por sua história de lutas e soerguimentos, de lugar onde a arte sempre esteve presente, de espaço de criação, o que pressupõe liberdade. É essa liberdade de existir (e resistir) com seus valores, uma das divisas do povo francês. Apesar do medo que congela, e leva mais de 80% da população francesa a optar por menos liberdade desde que a contrapartida seja segurança, conforme pesquisa divulgada na última quarta-feira, o povo saírá deste luto mais fortalecido na sua crença em valores democráticos de que são forte expressão o bem-estar e a justiça social, conquistados desde que a Bastilha veio abaixo, deflagrando uma revolução a que se seguiriam muitas lutas.

Unidos e racionais, traços peculiares, franceses têm dado mostras de que conseguem refletir com vigor mas sem ódio sobre a violência dos radicais islâmicos. Sabem que a ideologia destes, muito mais próxima da Morte que da Vida, tem raízes em complexas questões religiosas, históricas e geopolíticas. Combater os grupos pode ter efeito positivo apenas no momento: depois da Al Qaeda veio o Estado Islâmico; após este, o que será engendrado? Pensar a barbárie no mapa do mundo civilizado é muito mais custoso e desafiador. Pede estratégias sofisticadas para reequilibrar mentalidades.

Em tempo: o Bataclan fica no número 30 do Boulevard Voltaire. Tendo pertencido ao grupo da Enciclopédia, e defendido a absoluta prevalência do conhecimento, sobretudo na íntima ligação de moral, saber e felicidade, ao ser acusado de ateísmo Voltaire assim respondeu: “Eu acredito no Deus que criou os homens; não no Deus que os homens criaram.”

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