Carta

Por: Luiz Cruz de Oliveira

303233

De quando em quando meu pensamento fica temperamental, quase intolerável. Isso acontece quando sua ideia fixa acorda no meio da noite, e ele, desorientado, vaga pelos cômodos, desperta a casa inteira com seus gemidos e reclamos.Isso aconteceu essa noite, mulher.

Sua insônia – uma sarna, dizia ele, começou a coçar alta madrugada ainda. Então me acordou, insistindo em que me levantasse, abrisse-lhe a porta da casa, deixasse-o partir ao seu encontro.Relutei.O pensamento, todavia, martelava, enquanto o espírito – bigorna avermelhada – reclamava repouso, sob pena de a paixão interná-lo em sanatório.

Sem escape, anuí e entreabri a janela do quarto, deixando que, qual nauta moderno, o pensamento engolisse nuvens, navegasse ao seu encontro.

Absorto, não percebi que a brisa, aproveitando-se da ocasião, entrou e, apalpando o escuro, andou pela casa inteira, até restar nos braços do violão que cochilava na sala.

Sozinho na casa enorme, senti que o ressonar do silêncio era paulatinamente substituído pelo bafejo da brisa sobre as cordas do instrumento. Percebi ainda que a aragem fazia cócegas nas cordas, que elas sorriam.

Levantei-me e, ternamente, recolhi cada gota de riso que bailava no ar. Fixei, uma a uma, todas elas em pautas, depois espalhei-as em partitura.

Quando a canção ficou acabada, dissolvi-a nas entrelinhas desta carta que lhe envio amorosamente, mulher.
 

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