Sinais dos tempos

Por: Eny Miranda

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Em revista de grande circulação, leio a notícia: “Pela primeira vez, o vocábulo eleito o mais relevante pelo Dicionário Oxford foi um emoji, o desenho usado para expressar emoções em mensagens.” Logo depois, descubro na internet: “Os Emojis mudaram a nossa forma de se comunicar, e todos (ou a grande maioria) sabem muito bem disso e não discorda.” Assim mesmo, com o pronome reflexivo e o verbo, ambos, na terceira pessoa do singular. E a notícia prossegue: “Várias atualizações com pedidos de novos Emojis virão, mas a coisa está tão séria, que já existe uma enciclopédia só para tais ‘carinhas’.” Descubro, então, o nome da enciclopédia: Emojipédia. Mas a nota não para por aí: “E segura essa: o site já tem 40% de visualizações que a Wikipédia possui!”

Bem, é certo que os emojis são uma forma de simplificar a comunicação nas telinhas, ajudando os seus usuários a economizarem tempo, já que suprimem os muitos toques exigidos pela escrita convencional, não raro, para expressar uma única palavra. E o tempo parece se tornar artigo cada vez mais raro, neste século em que as 24 horas do dia ou não são mais suficientes para comportar as muitas atividades de cada um ou, por um fenômeno ainda desconhecido da Física, estão encolhendo, elas e suas frações, sendo comprimidas, sem mostrar qualquer sinal de resiliência.

É verdade que não sou fruto deste século, portanto, embora reconheça a importância da velocidade e da concisão na comunicação eletrônica, e me valha dela todos os dias, ainda admiro um texto bem escrito, uma notícia bem elaborada, com o cuidado de quem ama a palavra e sabe demonstrar por ela esse amor. Mal acabo de dizer isso, vem-me à lembrança Drummond em seu Anúncio de João Alves.

“Figura o anúncio em um jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

À procura de uma besta. — A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de 4 a 6 centímetros, produzido por jumento.
Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.

Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado. Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899. (a) João Alves Júnior.”

Quem, nos dias de hoje, escreveria algo assim num anúncio de jornal? E, caso surgisse esse alguém, quem leria tal anúncio, com a atenção que ele merece?

Drummond prossegue: “55 anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.”

Por onde anda, no Brasil e no mundo, esse esmero na escrita - a limpeza na linguagem, a pureza na forma, o zelo na transmissão dos detalhes, expressos em um simples anúncio, em uma notícia ou mesmo na comunicação cotidiana entre amigos e colegas de trabalho? Onde estão esses cuidados, capazes de transformar uma mensagem em “objeto de admiração literária”?
Não me refiro aqui ao estilo do texto, mas ao respeito, ao amor com o manejo do idioma.

A necessidade de economizar tempo força o homem à comunicação rápida, minando, assim, o terreno da palavra usada em extensão e detalhes, da escrita manifestada com apuro estético. Não há tempo para a reflexão, para a contemplação, portanto, não há tempo para a minuciosa descrição verbal do que quer que seja, inclusive das emoções. Observa-se a impaciência, a urgência, em todos e em tudo, o que acaba gerando omissões, deslizes - às vezes, grosseiros -, descaso no emprego da língua.
A internet, com suas cifras e seus emojis, passou a ocupar espaços preciosos na vida do homem, definindo, cada vez mais, padrões de conduta, interferindo em escolhas. Poucos veículos de comunicação têm o poder da internet de penetrar e transformar. Mas poucas expressões humanas têm o poder da Palavra de tocar, de aninhar-se, e também de transformar, porque, em lugar da manipulação, da imposição pela saturação, ela induz à liberdade da busca, à escolha pela reflexão, o que pode parecer difícil, hoje em dia, mas que ainda é possível. E sempre, creio e espero, sempre será possível, já que a busca é universal. A busca faz parte da condição humana.

E não devemos nos esquecer de que, se a palavra oral provém do homem e penetra o homem, nele se imiscuindo, a palavra escrita provém do homem e penetra a História, nela permanecendo.
Mais uma vez, Drummond. No século passado, o Poeta já fazia esta observação, tão atual:

“Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor com a tarefa bem feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.”
 

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