O céu de Wilson

Por: Isabel Fogaça

303761

No desenrolar da última semana, sem um motivo específico, lembrei-me de minha infância: o doce aroma de flores das quais eu nem sabia o nome; a fragilidade do encontro de pequenos pés com flocos de terra construídos pela chuva; e a vastidão do céu noturno, encapado por um lençol negro que provocava medo, mas ali também havia bilhões de estrelas para consolar um coração pequeno e muito frágil.

O céu do quintal de meu avô é o mais intenso que qualquer céu que já vi na vida. Pela manhã, abelhas mombucão fazem seu trabalho voando alto perto do maracujazeiro. Pela tarde, canarinhos famintos pousam seus corpinhos em poleiros feitos com cuidado pelo meu avô querido. E pela noite, morcegos frutíferos rasgam o céu em busca de figos, mangas e laranjas maduras.

O céu do quintal de meu avô é único. Não possui luz além do sol, da lua ou do brilho das estrelas. Quando pequena, eu gostava de admirar tudo aquilo, como se fosse meu. Eu olhava meu pai de longe, folheando um livro ou fumando um cigarro, e me sentia mais segura dentro daquela vastidão noturna que escolhera ser minha. Fiz isso por anos.

Porém, quando me mudei do campo, perdi o hábito de olhar o céu. Ganhei novas práticas de combustão: minha rotina mudou, direcionou-se ao trabalho e outras práticas massivas, porém nunca me esqueci do que vivi. Penso no céu daquele quintal como se fosse uma tatuagem em minha alma.

Pensando nisso, quando eu tinha cerca de cinco anos, cochichei para meu tio:
_O dia de hoje está muito estrelado!
Meu tio sorriu me corrigindo:
_A noite de hoje está estrelada, Isabel. Pela manhã dizemos “dia” e quando escurece, dizemos “noite”.”.

Talvez eu já soubesse que as estrelas nunca dormem, e apesar de não vê-las durante o dia, elas sempre ficarão ativas dentro do coração.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras