Sobre música e política

Por: Gabriel Careta

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As nuvens carregadas, que há semanas pairavam sobre São Paulo, ocultavam as estrelas sob as quais repousava o Teatro Municipal. Naquela noite, a orquestra sinfônica da cidade tocaria peças de Brahms e Mozart, e os apreciadores de boa música, bem como curiosos em geral, já se aglomeravam nas escadarias e no saguão de entrada do edifício.

Construído com inspiração nos modelos europeus de casas de ópera, o Teatro Municipal de São Paulo teve sua primeira noite de gala em 1911. Sua arquitetura neo-renascentista expõe um conjunto sóbrio, dentro da tradição clássica italiana. Seus muitos ornamentos internos, que somavam imponentes esculturas e belos afrescos, todavia, remetiam o público aos tempos do barroquismo francês. Uma mescla que bem caracterizava o aspecto multicultural do povo brasileiro, mormente nos tempos de sua construção, quando o país se encontrava no auge das imigrações europeias para a América.

Enquanto aguardava a permissão para ingressar na sala de espetáculos, que era dada pelo toque de alguma ária da peça a ser reproduzida, fiquei a contemplar as obras de arte que guarneciam o teatro. Sozinho como estava, não pude também deixar de ouvir conversas alheias. Poucos eram aqueles que falavam sobre música. A maioria do público espectador tecia comentários sobre a crise brasileira. Falavam aqueles velhos bordões que a empobrecida culturalmente burguesia brasileira adorava entoar: "a situação ainda vai piorar; não tem político que preste nesse país; está tudo muito caro e esses políticos só nos roubam; a justiça é corrupta". E, quase religiosamente, todos fechavam suas brilhantes exposições intelectuais com um simplório "é complicado...".

Finalmente, uma ária do hino acadêmico de Brahms foi tocada e me dirigi ao meu assento na sala de espetáculos. A grandiosidade do recinto maravilhou meus olhos. Em cinco níveis diferentes as cadeiras se dispunham, formando um oval que proporcionava exímias qualidades acústicas. A cerca de vinte metros do chão, no teto, estava gravada a pintura de Oscar Pereira da Silva, que simbolizava a origem do teatro grego, da música e da dança. Pairando acima de tudo, o busto de Antônio Carlos Gomes contemplava todo o salão, como um sentinela guardião da herança que deixou para a música brasileira. À esquerda do palcoscenico ficava o órgão do teatro, naquela ocasião guardado, pois não teria uso na apresentação.

À medida que a orquestra foi adentrando, salvas entusiasmadas de palmas foram dadas, atingindo estas seu ápice quando da entrada do spalla, seguido de perto pelo maestro. Iniciaram os trabalhos.

Ao tocarem Mozart, fiquei agradavelmente surpreso ao escutar a dialética melodia da Sonata para Dois Pianos em Ré. Certa vez, li estudos científicos indicativos de que essa composição seria capaz de aumentar temporariamente a inteligência do ouvinte. Fechei os os olhos e me quedei inerte, deixando as notas do piano serem absorvidas por meus ouvidos.

Finda a sonata de Mozart, os músicos se retiraram para o intervalo. Animado, resolvi colocar a hipótese científica à prova e saí para o saguão, de modo a ouvir novas conversações do público presente.

"Esse impeachment não vai dar em nada; bons tempos os da ditadura, quando não havia roubalheira; é tudo uma pouca vergonha; quando esse país vai para a frente?; É complicado...".

Resignado, retornei à sala de espetáculos para ouvir Brahms. Ao menos aqui não mandaram a presidente beber daquele lugar, pensei consolado...

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