Anna Karênina

Por: Sônia Machiavelli

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Joe Wright, nascido em 1972, foi o mais jovem diretor de cinema a abrir o Festival de Veneza em 2005 com Orgulho e Preconceito, aclamado pela crítica e visto por milhões de espectadores. Era seu primeiro filme. Antes ele fizera apenas curtas e uma série para a TV chamada Poder e Paixão, sobre Charles II. Seu segundo trabalho, em 2007, Desejo e Reparação, obteve ainda maior repercussão, desta vez junto a cinéfilos que viram na obra traços de evidente originalidade na estrutura narrativa. Em 2013 Anna Karênina voltou a surpreender pela forma conceitual com a qual o diretor concebeu a história.

Wright gosta de transpor clássicos da literatura para a tela. Orgulho e preconceito ( Pride and Prejudice) é título do romance da inglesa Jane Austen ( 1775- 1817). Publicado em 1797, conta a história de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, um relacionamento repleto de incompreensões causadas por preconceito de classe e pelo temperamento da protagonista. Desejo e Reparação ( Etonement) tem por suporte literário o romance ( 2002) de um dos ficcionistas de língua inglesa mais lidos em nosso tempo, Ian McEwan (1948). Usando a técnica de flashback constante, o roteiro sugere a complexidade da memória e sua relação intrínseca com as emoções: Briony, adolescente de imaginação fértil, pode não ter visto o que acha que viu e, revelado, destruiu a vida da irmã, Cecília Tallis. Anna Karênina ( 1877), romance magistral do russo Tolstoi (1828-1910). Foi considerado por Dostoievsky “impecável como obra de arte”; Nabokov, “extraordinária mágica do estilo”; Faulkner, “o melhor romance já escrito”. A frase que abre a grande narrativa tornou-se antológica: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Keira Knightley é a musa de Wright. Para ela foram reservados os papéis de Elizabeth Bennet, Cecília Tallis e Anna Karênina. São, as três, personalidades ricas que o cineasta se propõe a mostrar em toda complexidade. Elizabeth está um passo à frente de seu tempo, leal a seus sentimentos e pensando de forma crítica o entorno. Cecília, moderna e antenada nos anos 30, mostra-se livre para viver seus desejos, mas se torna vítima de situações incontroláveis. Anna Karênina, mulher casada que se apaixona por outro numa sociedade que não permite isso, é irmã de alma de Madame Bovary, que Flaubert escreveu em 1857; da Luísa, de O Primo Basílio, que Eça de Queiroz publicou em 1878; de muitas outras que continuam a mobilizar o espírito do leitor. A mistura explosiva de amor, sexo, paixão, dependência, traição, fidelidade, machismo, feminismo, poder e fragilidade é tema eterno.

Vamos a Anna Karênina, o filme. Estamos em 1874 e Anna , uma aristocrata, casada há dez com Karenin (Jude Law), alto funcionário do governo, aparece em todo seu esplendor vestindo-se com a ajuda de empregadas. A cena é impactante. O rodopio a que a obrigam as faixas da vestimenta e a leitura de páginas de uma carta prenunciam a vertigem em que a protagonista vai mergulhar. Ela tem um filho de oito anos a quem ama. Vive numa casa maravilhosa. E é belíssima. Na sequência a vemos empreender viagem de trem para intervir, a pedido, numa crise matrimonial na qual está mergulhado o irmão, autor da carta. Nesta viagem ela conhece o Conde Wronski (Aaron Taylor Johnson), que a seduz. É esta paixão avassaladora e suas consequências que constroem o livro de Tolstoi. É ela que inspira Joe Wright, na adaptação do romance para a tela, a criar imagens que hipnotizam o espectador desde o primeiro instante.

Algumas cenas têm tanta força que permanecem no nosso imaginário muito tempo depois de termos assistido ao filme. Impossível esquecer a corrida de cavalos em que Vronski se acidenta e Anna, no meio do público, deixa-se trair aos olhos do outros; o baile em que ela se nega a acompanhar o marido de volta a casa; o primeiro encontro íntimo dos amantes, quando ela se compara a uma mendiga que andara faminta por toda a vida, comendo sanduíches por desconhecer o gosto dos banquetes; a ostensiva rejeição social no teatro e em todos os lugares onde antes era recebida com pompa quando casada. A paixão de Anna por Wronski é captada em todos os instantes, até o final trágico.

Ambicioso e ousado, o cineasta não quis apenas recontar uma história literária de alta voltagem passional , adaptando-a à linguagem cinematográfica. Ele incorporou à direção de arte elementos do teatro e escolheu um palco para cenário onde a história se desenrola. Ou seja, sua opção traz uma mensagem, incorpora uma leitura da obra literária. O espectador olha a tela e vê uma peça de teatro. Assiste a uma obra fílmica que mostra uma dramaturgia. A metáfora, que não é original, neste caso ganhou tintas muito expressivas porque se fundem forma e fundo. Os aristocratas e burgueses da sociedade russa do período estão presentes no palco principal e nas coxias, nos camarins e nos camarotes, o tempo todo representando e assistindo à representação dos outros.

Sob o signo da hipocrisia, cada um tem o seu papel naquela vida burocratizada que cuida obsessivamente da hierarquia e preza as aparências, a ostentação, o dinheiro, o brilho. Escapa do cenário, e é mostrado de forma realista, Konstatnin Levin, personagem à qual muitos críticos atribuem função de alter ego do escritor. Levin recebeu do diretor Joe Wright um tratamento cuidadoso, a começar da escolha do ator Donhall Gleeson, perfeito na pele do típico homem do campo na Rússia czarista- puro, trabalhador, religioso. É alguém com quem Tolstói se identifica, no seu sonho místico e romântico de um mundo igualitário e de simplicidade máxima.

Em breve os tempos mudariam... A Revolução Russa chegaria em 1917 para transformar a estrutura social e impor um regime que não duraria um século e teve como data simbólica de seu fim a queda do mundo de Berlim, em 1989. Outras revoluções ao redor do mundo irromperiam para mudar não apenas as relações entre capital e trabalho, mas para revisitar e mudar conceitos sobre o comportamento do ser humano, suas emoções, seus desejos, sua face complexa. A mulher conquistaria sua alforria, pelo menos no Ocidente, buscando independência econômica e emocional.

Anna Karênina, quando vista sob o prisma de nosso tempo, escapa ao olhar moralista e conservador de Tostoi que a enxergava como egoísta e fútil, tomada por uma paixão avassaladora, merecedora do castigo que teve por ser extremamente individualista.

Hoje ela é vista como pertencente à mesma categoria onde se reúnem Emma Bovary, Luísa e outras mulheres parecidas que na literatura (reproduzindo a vida) elegeram o amor, não recusaram a paixão e se tornaram assim as primeiras feministas – autênticas, libertárias. Este é o maior valor de um ficcionista: criar seres que escapam a seu controle, ao tempo em que foram construídos e à moral vigente. Anna Karênina é eterna e o fascínio dos cineastas por ela pode ser avaliado pelo número de adaptações feitas para o cinema. Antes de Keira Knightley, interpretaram a protagonista as atrizes Sophie Marceau (1997); Jacqueline Bisset(1985); Vivien Leigh (1948); Greta Garbo (1935) e Betty Nansen (1915).

Parte da história do cinema desde seus primórdios, Anna Karênina revela antes de tudo a força da criação literária e sua permanência no imaginário de leitores, que é de onde vêm diretores da excelência de Joe Wright.
 

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