E eu

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Fregueses únicos, àquela hora da madrugada, dávamos vida ao boteco da periferia. Estávamos ali o poeta – com seu violão, o boêmio – com seu cavaquinho, e eu – com minha solidão.

O poeta não precisava de estímulo para permanecer entusiasmado o tempo todo. Cada trago era uma pincelada, descrevia a sua alcova, dava ênfase à cama, ao chinelo velho. Nele deixaria Vinícius e Bandeira, Pessoa e Camões, se a mulher voltasse, tão logo ela batesse à porta e, rolinha cansada, se aninhasse em seus lençóis.

Quando a manhã indiscreta denunciasse a nudez de ambos, ele caminharia em direção ao vale, sentaria numa pedra, à beira do rio e, com o dedo indicador, reescreveria, na superfície das águas, todos os sonetos de Shakespeare e todos os poemas de Neruda.

Os olhos do boêmio navegavam na fumaça do cigarro, com ela evoluíam em direção ao teto, ao telhado escuro do cômodo estreito. Mantinha ele, porém, os ouvidos arregalados e, mecanicamente, cada vez que depositava o copo vazio sobre a mesa, tangia uma das cordas do cavaquinho, acompanhava com os olhos o som do instrumento, que caminhava para a porta, saía, perdia-se na rua escura.

Quando o poeta silenciou, o boêmio continuou emudecido. Já fizera todas as confidências ao instrumento e ao coração. Pela milésima e última vez, jurou: se a amada abrisse a janela, na próxima serenata, e lhe oferecesse tranças ou escada para ele queimar distâncias, renunciaria ao álcool, ao cigarro, a tudo. Sem soltar a mão de sua Julieta, doaria seu cavaquinho ao primeiro bêbado que passasse pelo beco.

Eu, demasiado sóbrio, pago a conta, despeço-me dos camaradas eventuais.

Saio, caminho, pisando pedras, vestido de névoa, engolindo garoa.

Ando na noite.

Ando convicto de que, amanhã, quando o sol terminar suas preces e se recolher à sua caverna, eu sairei novamente pelas ruas, pelos guetos, pelos botecos, à procura de boêmios e poetas.
À procura de promessas e de sonhos.
 

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