Estou onde sempre quis estar

Por: Isabel Fogaça

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Os últimos cinco anos foram uma imensa montanha em minha vida. Partindo deste pressuposto, uma vasta caminhada começa pela base, o mesmo local onde o topo parece ser um lugar inacessível perante a extensa peregrinação. Quando cheguei à cidade de Franca, com o intuito de estudar, eu não sabia nem mesmo o caminho do centro à faculdade. Foi quando o cobrador do ônibus puxou a cordinha para mim, e ao descer, uma moça que eu nunca havia visto me acolheu embaixo de seu guarda-chuva até minha sala de aula. Logo no primeiro dia desta jornada, conheci três pessoas que me deram um lugar para morar, e agiram como uma muleta resistente que equilibrou boa parte de minha falta de casa.

Nesta caminhada, enchi os pulmões com veemência e subi enfrentando todos os obstáculos presentes. Estanquei minha bandeira no solo seco e firmei um compromisso comigo mesma. A força no punho, eu desconheço de onde veio, e se eu dissesse que caminhei sem medo, estaria mentindo. Porém, em nenhum momento tive vontade de retroceder. Guardei minhas fotografias como amuletos sagrados, às vezes fazia uma fogueira no meio do percurso, foram escassos os calos e as lágrimas advindas da solidão, porém tive companheiros de escalada que costuraram meus trapos, e me ajudaram a continuar subindo.

Quando cheguei ao meio da montanha, com quase quatro anos de caminhada, começou a nevar abundantemente. Meus lábios e meus dedos racharam, adoeci e perdi um grande amor. Remediava o frio e o buraco no coração brindando os russos, com doses de vodca e contos de Charles Bukowski. Minha alma estava magra e adoecida, procurei forças no trabalho, conheci muitas pessoas, servi muitos rodízios de pizza, bolos de aniversário, e rodadas de cerveja. Não trabalhei para enriquecer, trabalhei para continuar viva.

No início do meu quinto ano de escalada, vi a luz do topo da montanha bem próxima a mim. Segurei com firmeza meu diploma, como uma mãe que segura um filho pela primeira vez logo após o parto. Motivada pela alegria do nascimento, eu não estava satisfeita com o que tinha, busquei meu mestrado. Passei onze meses esperando a prova chegar. Neste meio tempo, carreguei muitas bandejas; ouvi muitos “nãos” e zumbidos de pessoas que não acreditavam de mim.

Esperei dezembro chegar, para que eu pudesse beijar meus avós, abraçar meus pais, e dizer palavras de alegria ao meu irmão. A luz está cada vez mais próxima, e com gratidão digo que além de estar perto de realizar o sonho do mestrado, estou sentindo o cheiro de casa.

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