Cem Anos de Solidão

Por: Luzia Izete da Silva

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Poucas vezes lemos livros que nos causam tanto impacto e emoção, cuja narrativa nos vem fragorosamente e nos arrebata por seu encantamento. Cem Anos de Solidão é um desses livros. Penso que Fédon e As Últimas Cartas de Lenin somam-se a esta obra de Gabriel García Márquez no que se alinham a nos prender pelo que representam em distintas interpretações. Mas em alguma coisa as três obras convergem:  seus desfechos tecem o fadado destino dos humanos: a morte.  García Márquez nos enreda numa história onde a realidade mostra-se absurda, onde os absurdos são insondáveis, onde ambos transitam no mesmo paralelo. Por vezes a realidade mostra-se cruel com alguns personagens: quando, num vislumbre de lucidez, na antiguidade de seus anos, Úrsula descobre que era motivo de brincadeira das crianças, a sensação de realidade que temos beira a crueldade, o descaso dos parentes da casa. Quando as pessoas desistem de ir ao cinema por entenderem que “estão sendo enganadas” porque o mundo do cinema é irreal, são histórias inventadas, o que devemos pensar? Que exercício fazemos para caminhar nas trilhas da mente deste escritor!
 
A História
 
A compreensão da história exige de nós que estejamos afastados dos fatos para melhor compreendê-los sem miopias. A história dos Buendía é contada de modo cifrado por Melquíades, “...não no tempo convencional dos homens”, diz o autor, “mas concentrando tudo em um século de episódios cotidianos”.  Fazendo uso dessa noção histórica do afastamento o autor nos adverte que o conhecimento da própria história [dos Buendía] não se daria prematuramente, caso dos gêmeos que desistiram de desvendar os pergaminhos, depois de tentativas frustradas, a fim de saber sobre o que versavam. Somente no desfecho o personagem Aureliano decifra os documentos e conhece a si mesmo. Seu destino está selado num vendaval aterrador. Não terá tempo de mudar nada, reconhece. Assim, a história irreal fataliza algo da história real: ela é por si, e não se antecipam decisões contrárias, salvadoras. Não se muda. 
 
Não há adjetivos que alcance esta obra definidora do talento de García Márquez, para a nossa glória, uma latinoamericano. Somos tragados, sem direito a protestos, pelo encantamento. Cem Anos de Solidão não expira como explicação pelo desalento de seus personagens, traço genético dos Buendía. Para além do real e do irreal, parece-nos que ao povo que permanecer parado no tempo, sem vislumbrar mudanças, estará condenado à extinção, à  morte  inexorável. A saga humana irreversível deu-se pela adaptação. Aí talvez resida a chave para compreender o desalento dos Buendía, desprovidos de perspectivas. Uma metáfora à história humana cuja trajetória é marcada inerentemente pelo agir no tempo. Para além das fímbrias do real e do irreal humano, caminhando às cegas, devemos seguir sem olhar para trás. Fora deste desenrolar imprevisível, e desejável (seria terrível se os gêmeos descobrissem seus destinos antecipadamente!) estaremos como o ciclo invariável dos peixinhos de ouro, cujo metal simboliza o eterno, ao isolamento e à incompreensão. Cem Anos de Solidão tem muito a nos dizer sobre nós mesmos, mesmo que estejamos no fadado descobrir do futuro apenas no momento em que ele acontece, sem antecipações.
 

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