Um Auto de Natal

Por: Sônia Machiavelli

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Específico dos idiomas espanhol e português, a palavra “auto” significou  até o século XIV a produção poética em versos de sete sílabas, geralmente cantada.  A partir dos Quatrocentos, passou a designar peças de apenas um ato (ou auto) e caráter religioso. O mais antigo entre os conhecidos é o Auto de Los  Reyes Magos, atribuído a Juan del  Encina, um dos criadores do teatro na Espanha. No idioma português, o gênero encontrou em Gil Vicente seu representante-mor  com, entre outros, O Monólogo do Vaqueiro ou  Auto da Visitação. Pelo caráter pedagógico, o auto se prestava a catequisar e  foi usado largamente pelos jesuítas em missão no Brasil. Muito do sucesso que Anchieta alcançou junto aos índios se deveu aos autos criados por ele e representados pelos nativos na areia escaldante ou no seio da floresta. 
 
Grandes autores revigoraram  o auto nos séculos seguintes e ao transcenderem a dramaturgia, o elevaram a gênero autônomo na literatura ocidental. Foi assim que  ele atravessou o oceano e chegou ao Nordeste brasileiro, com jeito medieval, caindo no gosto popular. Basta lembrar o sucesso  do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna; Uma Noite de Festa, de Joaquim Cardoso;  Auto da Catingueira, de Elomar Figueira Mello.  E o Auto de Natal Pernambucano, mais conhecido como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto. Escrito em 1954 e publicado no ano seguinte, este último  é um longo poema  dramático de versos curtos e musicado pelo ritmo da redondilha.  O espírito religioso  se manifesta nos nomes de alguns personagens (Maria, José, o carpinteiro, Zacarias). O poema saiu inicialmente no livro Duas Águas, mas sua  força estética e a temática social o fizeram alçar voo e, independente, ele ganhou o mundo em muitas  traduções . A narrativa  que o leitor/ouvinte  acompanha é a saga de um retirante do sertão que vai guiado pelo rio Capibaribe na direção do litoral, em busca de salvação.  Nas travessias, da Serra da Costela para a Caatinga; e da Zona da Mata para o Recife,  o protagonista  faz o relato das misérias que encontra . Antes, ele se apresenta :  
 
 
“ O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.”
 
 
Premido por necessidades de toda ordem, Severino alimenta a esperança de que na capital possa ter uma vida digna. No caminho, porém, encontra as diversas faces da Morte- a seca, a fome e as disputas por terra...  E ao chegar ao Recife,  o que a cidade lhe oferece é ainda mais amargo, como se lhe enchessem a taça com novas gotas  de fel, de modo que ele, desalentado, deprimido, planeja  matar-se. Quer morrer atirando-se no rio que o guiou até ali. É quando presencia o nascimento de um menino, filho de José, um carpinteiro, e desiste de seu intento.  Esta revelação da Vida, uma espécie de epifania, salva o personagem e  inspira ao poeta versos de forte apelo emocional: 
 
 
“E não há melhor resposta 
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
 
 
A primeira  representação de Morte e Vida e Severina se deu com um grupo de teatro do Pará. De lá para cá foram  centenas  as encenações deste drama nordestino de alcance universal  ao apresentar  o deslocamento de um migrante que se expressa de forma simples mas profunda, e coloca no palco da vida algumas expressões do  sofrimento humano.  Chico Buarque, ainda muito jovem, ao musicar a peça fez com que a mensagem chegasse a milhões de brasileiros. Duas vezes transportada às  linguagens  televisiva  e cinematográfica, tem também uma versão audiovisual  adaptada aos quadrinhos em preto e branco, trabalho do  cartunista Miguel Falcão, que preservou o texto original. 
 
A grande obra de arte é provocativa, não fica restrita ao momento em que foi publicada nem ao suporte em que foi concebida. Está sempre inquietando. Foi assim que os jornalistas Gerson Camarotti, muito conhecido repórter político, e Cristina Aragão, do segmento cultural, resolveram revisitar o poema, percorrendo o trajeto de Severino. O trabalho ensejou a ambos assinar o belo documentário  Morte e vida severina, 60 anos depois, para o canal  GloboNews, que já o exibiu algumas vezes no mês passado. 
 
Gerson e Cristina percorreram mais de 1.400 km no estado de Pernambuco para refazer  o caminho do personagem épico e trágico. Seis décadas depois da publicação do poema, o documentário nos leva a observar a realidade de dezenas de outros severinos e severinas. Durante o percurso, a equipe convidou os moradores do Sertão, da Zona da Mata e do Recife a ler trechos do poema. Dessa maneira, foram   captadas histórias comoventes e complementares à saga do Severino literário. A coletânea de vozes fixa-se como um subtexto aos versos lidos pelo ator Jesuíta  Barbosa, que integra o grupo de trabalho junto com os  cinegrafistas Murilo Salviano,  Sandiego Fernandes e Edson Vander Simpson.  
 
A equipe encontrou  um cenário  muito parecido com aquele que motivou o poema há 60 anos. As pobres mulheres largadas em  seus casebres ou  palafitas pelos maridos que foram  procurar  existência melhor no Sul. As rezadeiras que curam de-um-tudo com o galhinho de algum arbusto ou erva. Os coveiros que enterram corpos de tantos seres sofridos.  Os carpinteiros de  arte tosca.  As moradias precárias, abafadas, escuras. As águas ribeirinhas degradadas. Mas também crianças e adolescentes que expressam sua crença de que só pelo estudo poderão melhorar de vida. Homens e mulheres que diante de tanta miséria (ainda) alimentam sonhos. Músicos que fazem do maracatu uma expressão de arte sensual e potente. Caixas de armazenamento para a  água que garante um pouco de vida. E um lindo bebê, filho de uma adolescente, que antes da gravidez queria ser médica e agora se contenta apenas em ser manicure, e de um pai que está preso. Não há como manter-se emocionalmente impassível.
 
“Vi que as palavras do poeta permanecem vivas, seja pela morte, seja pela vida severina”, diz Cristina Aragão. “Aprendemos muito com os personagens que encontramos neste longo trajeto do Sertão até os manguezais do Recife”, completou Gerson. 
 
Os  que tiverem a oportunidade de assistir ao documentário, que o façam; é boa oportunidade para entender nossas fraturas de País desigual e sentir que a poesia  inspirada pelo sofrimento, se pereniza. Porque a lembrança da alegria já não é alegria; mas a da dor repercute  infinitamente, e pode nos levar a uma mobilização por mudanças reais, factíveis, necessárias, básicas.  Sem elas, serão mais 60 anos de atraso.   

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