Celular mente.

Por: Maria Luiza Salomão

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Quem pode me dizer hoje, com plenos pulmões: estou aqui! Vejo, ouço, vim, aqui estou, aqui sou? 
 
A coisa anda tão difícil que não há conversa. Alguém começa a narrar, e logo precisa se interromper, porque o outro está aflito para narrar a sua narrativa, não para ouvir aquela outra. 
 
Quem olha para mim? Quem me escuta? Quem me ouve? Quem está comigo? Quem é comigo? 
 
A melhor metáfora, hoje em dia, para o “estar ensimesmado”, ausente, blindado, é o celular.  A célula que se forma em torno de quem -  com um objeto móvel nas mãos – entra em uma bolha mágica. Apartado, distanciado de todos (ironicamente conectado com milhões). 
 
Com quem fala? Ouve quem? Está com quem? É quem...para aquele objeto, teclando com os dois polegares, olhar fixo, cabeça encurvada, sentado na calçada, ou desviando o olho da direção do carro, ou parado à porta de uma casa, ou andando apressado, ou conversando aos sussurros dentro do ônibus, ou a voz aberta, dentro do cinema (que luz infernal!), ou na sala de espera, ou... 
 
Eu vejo, eu pasmo, eu ouço sem querer ouvir conversas celularfônicas.  O que há nesse objeto de tão valioso que rouba a cena, rouba a fala, rouba o olhar, rouba tudo e não deixa nada, a não ser esse corpo pendente, dependente, esvaziado de tudo, até da alma dele, aprisionada nessa célula-objeto, nesse mal e bem dito celular?   Sempre longe, nunca perto. Sempre distante daquilo que é a cores, ao vivo, com cheiro e tato, corpo e alma presentes?
 
Eu pergunto, e não espero resposta. Porque não há.  Não por ser hoje, século XXI. Sempre foi assim, entrega-se fácil a alma (ao diabo, dizia-se). 
 
Não se ouve a alma do outro se não se ouve o caminhar suave e ritmado  que ela usa ao atravessar a ponte invisível da comum ação, eu-com-você, você-comigo. Daqui caminho até ali, dali caminha até a mim. O encontro acontece ao meio. 
 
Celular é um espelho deformador e fascinante.  Como aquele de Dorian Gray. E quem há, de, assim, viver?  Viver, digo, sentir. Viver, digo, ter experiência? Viver, digo, conhecer o que não conhecia. Conhecer não somente ao outro, mas a mim. 
 
Há um perigo insano de nos dissolvermos em anônimas redes sociais, em imagem e em palavras, um imenso liquidificador. 
 
Creio que os índios tinham razão. O espelho pode roubar nossa alma, principalmente se acreditamos que o reflexo é mais vivo do que aquilo que vivemos interiormente, no coração do coração do que nos mantém vivos.    

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