Zeca no céu

Por: Isabel Fogaça

304819
Maria José de Freitas, popularmente conhecida como “Zeca”, viveu 102 anos. Zeca foi minha bisavó, e quando eu era pequena, ela se ajeitava ao meu lado enquanto eu observava o desenrolar de maravilhosos tapetes feitos por suas mãos sofridas pelo tempo. Meus cachorros favoritos mantinham-se leais ao nosso redor. Ao menos uma vez a cada ano, nós nos encontrávamos na casa de meu avô Wilson, onde ela também ajudava na confecção de deliciosas pamonhas com queijo, evento de que fazia questão de participar, mesmo quando estava velhinha.
 
Minha mãe me conta que a vó Zeca foi muito participativa em sua infância, levava minhas tias para brincar no parquinho; ajudava minha avó Isabel no trabalho de casa; fez questão de ensinar coisas boas aos seus filhos; e há mais de trinta anos, quando minha avó Isabel não estava mais aqui, foi minha vó Zeca que ajudou minha mãe com os cuidados pós-parto do meu irmão mais velho, o Chico.
 
Minha avó Zeca viu duas guerras mundiais; a Guerra Fria; a famosa Crise de 29; a Ditadura Militar e a Queda do Muro de Berlim. Minha bisavó viu a morte de Lenin, o Al Capone em seu clímax; a estreia de Beatles e Dylan, e o Mandela se tornando presidente. Ela que esteve aqui nos grandes eventos da história mundial e na história de minha família. Agora, de forma egoísta, me pergunto: como será nosso Natal sem a vó Zeca?
 
Minha vó Zeca esteve tão presente em nossas vidas que agora não sei como vou fazer no Natal. Uma cadeira vai estar vazia, vai faltar uma pamonha, vai sobrar um rolo de barbante de crochê. Não vai ter ninguém pra separar um pedaço de peru de Natal e dizer: “Você tem que comer carne!” ignorando tudo que eu disse sobre o vegetarianismo. Não vai haver briga para a  lavar a louça. Vai sobrar ausência daqueles olhinhos perceptivos cobertos por rugas, sofridos pelo tempo, analisando tudo ao redor. Vai faltar sua mãozinha gélida, com unhas cobertas por um esmalte rosa claro: “Eu sou viúva! Não posso passar esmalte escuro! Meire, não passe esmalte escuro!”.
 
Guardo nossas lembranças como amuleto. Vovó,  brilhe aí do céu.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras