Ler para viver

Por: Angela Gasparetto

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Aos 19 anos  tinha um caminho solitário pela frente. Sentia-se velha comparada aos amigos. Enquanto se divertiam todas as noites, ela lia Graciliano Ramos. 
 
Graciliano Ramos é muito bom, mas é um tanto quanto introspectivo demais para quem tem 19 anos...
 
Adorava mergulhar na depressão do autor, na sua narrativa lenta, escura e úmida.
 
O livro “São Bernardo” então, leu de frente para trás de trás para frente. Sabia de cor. Sabe de cor.
 
A solidão da personagem Paulo Honório e a vida martirizada de Madalena a enchiam de um prazer solitário. 
 
Ninguém das suas relações lia Graciliano. Machado então, nem se fala. Lia-se sim, mas obrigado para o colégio. Não para a vida.
 
Como podia gostar de luz, se só sentia trevas? Pois gostava de horas lentas, de neblina, de chuva na telha, de tempo incerto.
 
Gostava de mergulhar na fantasia de um livro, entrar na estória e se possível morar lá. Seu momento preferido, isto desde que tinha 10 anos, era após o almoço, deitar à sesta, na solidão da casa com um livro à mão,  parar o tempo naquele momento. Silêncio. Horas lentas, longo tempo. Zumbidos apenas dos mosquitos. 
 
Hoje pensa: “O que  me salvou foi Graciliano! Pois, a dor da solidão naquele tempo era tanta que para não surtar e "morrer", preferiu a introspecção da leitura.
 
Leu demais para uma pessoa jovem. Há controvérsias. Mas leu-se de menos para vida.
 
Hoje em qualquer curso que esteja sobre literatura, fica confortável por conhecer os clássicos, por ter lido tanto Graciliano e outros.  Aliás, é íntima deles. 
 
 

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