Doce fia

Por: Débora Menegoti

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Não posso. 
 
A munheca está emperrada.
 
Os papéis que chegam pelo correio corroem meus pensamentos como giardias na minha barriga.
 
Se pudesse acabava de vez com isso. Do que adiantaria? 
 
Penso rimas, versos, palavras... Paralisadas, todas.
 
Nenhuma mudaria. 
 
Sou a Dé (e quase coloco um “só” antes de ‘a Dé’), não há como ser melhor, aqui na casa deles, quer dizer, na nossa casa. Não falta nada. É que o amor que transborda infalível e permissivo me amedronta. Eu tenho ciúmes, eu tenho amor, eu tenho responsabilidades e fé.
 
Eu tenho apenas duas orquídeas, meu jardim de pedrinhas brancas, manjericão, guaco, pimenta, samambaia e flor-de-maio. Não tenho violetas. Não quiseram se casar comigo. Não tenho enfeites no papel machê e meu pai não nos obriga a almoçar junto todos os domingos. Não tem essa de “todos juntos” nem paredes em cores vivas. Não sou acolhedora.
 
Quanto mais me inquieto mais soa infantil. Penso no meu avô. Queria saber como ele faria em meu lugar. Ele não estaria em meu lugar. Ele perdoa sempre, pede perdão mesmo quando tem razão. Talvez eu o conheça pouco.
 
Estou monocromática. 
 
Meu peito ressoa tique taque inseguro. Ganho mais dois graus de miopia. 
 
Esmagada, sem ar, tento rimar teu nome e faço trocadilhos: Sou filha, Só fia, Só pia, sorria...
 
Eu te amo, paçoquinha, doce de lichia!
 
Preciso aprender sair daqui, dos futuros fantasiados, dos meus pedidos velados aguardando tua aprovação. Faço teu leite, teu pão. Deus abençoe a nossa paz. 
 
Deixa sentir prazer  nessa chuva que me chega fina como uma poeirinha para me lavar aos poucos e me libertar dessa prisão que é estar dentro de mim. Vivendo de colecionar arrependimentos e novos erros. 
 
Abro os olhos e de sobressalto me engasgo com o primeiro gole de vida. Agua doce.

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