A libertação de um idiota

Por: Mirto Felipim

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Sabia que aquela manhã deveria ser diferente de todas da sua vida. Afinal era a última. Refez todo o ritual matinal e sentou-se no sofá da sala com o mesmo caneco de louça com café puro e fumegante.
 
Era um dia de dezembro tão conveniente como outro qualquer. Com a televisão ligada escutava desatento a rouquidão do pregador ensandecido. Apenas deixava o barulho fazer parte de seu silêncio.
 
Olhando para a parede infinita via à sua frente o túnel do passado. O que edificara o que destruíra?  O sorriso de satisfação idiota rondou por um momento seu pensamento.
 
Mas a libertação precisava ser consumada. a manhã não era tão longa que pudesse desperdiçá-la. Mas também era inevitável que mergulhasse no poço indefinível de tudo como se fosse Salomão recebendo um legado que nunca poderia ser seu.
 
Seu templo estava prestes a ser finalizado mas nada dentro dele poderia ser motivo de orgulho. O ouro podre dos dias férteis refletia apenas a decadência de suas obras.
 
O café agora frio descansa na caneca esquecida. A vida desvairada de lascívia gula e até mesmo benemerências esgotara sua capacidade e o tesouro salomônico de seu entendimento não fazia mais sentido algum.
 
Sentira-se até aquele momento sempre cercado de uma maioria idiota e inconsistente situação amenizada aqui e ali por preciosas e pontuais companhias. Naquele momento entretanto recebeu a inspiração para também sentir-se maioria e experimentar tranquilamente o confortante sentimento de ser apenas mais um dentre os idiotas que tanto condenara.
 
Completamente depurado e liberto do complexo de proficiência purificou o espírito no incenso da aceitação e despedindo-se de toda consciência superior que idiotamente julgava ter juntou os cacos da párvoa sabedoria e despediu-se definitivamente da necessidade de conhecimento deixando para trás aquele ser cheio de argumentos e razões para se juntar à cumplicidade ignorante e conseguir ser feliz.
 
A partir daquela manhã totalmente liberto despedia-se da vida infeliz sepultando a idiotice do discernimento que o guiara até ali. afinal era dezembro bom momento para se entregar às compras aderindo definitivamente ao consumismo da verdadeira sabedoria.
 
... chega ...

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