Mãos nas mãos

Por: Eny Miranda

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“Ebony and ivory live together in perfect harmony
Side by side on my piano keyboard, oh lord, why don't we?”
Ebony and Ivory – Paul McCartney
 
Lá fora, o céu é puro; a lua extrai do sol um clarão sem íris, sem matizes, e, solidária, reflete sobre morros, árvores, lagos, pedras, planícies... a luz monocrômica, alba, repleta de segredos - sabedoria estelar. A estrada nem sempre é plana e suave. Há longas subidas, trechos curvos, irregulares, pedregosos...
 
Naquele veículo, velhos e jovens; homens, mulheres e crianças coexistem. Nomes, origens, destinos... nada sabem uns dos outros, vizinhos e convizinhos; no entanto, convivem, quase fraternalmente. Uns dormem, entregam a fragilidade do seu sono aos semelhantes estranhos; outros conversam baixinho ou leem. Alguns, como eu, contemplam o céu nos elementos terrenos: almas flutuam; olhos vagueiam; corações devaneiam; cérebros se equilibram na corda bamba do sono, embriagados de luz. Veios de serenidade e paz principiam um brotamento silencioso e paulatino, transmigram em sentido retrógrado, por vertentes ignoradas, seguindo seus leitos, desde os arquivos de afeto e de memória até as retinas, que fertilizam, antes de desaguarem nas pupilas.
 
Então, pouco a pouco, novas silhuetas se criam e recriam, levitam e fluem além das amplas janelas: árvores se alongam, alforriam as raízes, abrem os braços e - borboletas de grandes asas - conhecem novos campos, esvoaçam sobre montes, beijam pradarias, enfeitam relvados; planícies ascendem aos ares, liquefazem-se em serenos lagos suspensos; colinas são estalagmites que fitam de perto a lua e dela se embebem e se enamoram; pedras se deslocam em longas fitas de prata líquida até se consolidarem, faiscantes, aqui, ali, em cada canto, em cada ponto, Via Láctea terrena. 
 
E a luz alba está a luzir e a fecundar a nova estrada, e a estrada-luz a atrair miríades de povos... e um novo mundo, uma nova galáxia de gentes sem matizes, acontecendo: velhos e jovens, homens, mulheres, crianças... flutuam lado a lado, mãos nas mãos, desenhando, fraternos, na onírica estrada, a fantasia que anima poetas e sonhadores solitários - poeiras estelares unindo, em livres falas e silêncios e gestos e reflexos, vidas e sonhos, céus e terras e universos.                                                            

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